Às margens: as relações entre as mulheres, o trabalho e o direito à terra em Moçambique

On the margins: relations between women, work and the right to land in Mozambique

Autores

  • António Domingos Braço Universidade Federal do Pará

Palavras-chave:

Gênero, Trabalho, Direito, Terra, Moçambique

Resumo

O presente artigo discute as relações de gênero a partir da divisão cultural de trabalho e do direito de propriedade de terra entre o povo Sena, no distrito de Marromeu, Província de Sofala, Moçambique. O trabalho é um recorte de uma pesquisa de campo realizado entre 2013 e 2016, que a partir da perspectiva hermenêutica e na experiência interpretativa buscou adentrar nos discursos sociais das narrativas orais dos Sena para compreender seus significados e seus modos de produzir mulheres e homens dentro desse contexto social. Entre os diversos aspectos dos modos de vida e organização social dessas populações, constatou-se que o rio Zambeze desempenha um papel importante no processo das atribuições diárias quanto às ocupações das mulheres, a quem cabe o trabalho nas suas margens, o que inclui a prática de agricultura de subsistência, e às dos homens, que no dia a dia ocupam o seu leito, através da pesca e navegação. Contudo, verifica-se que o dever social e cultural que as mulheres têm no uso da terra, não se manifesta do mesmo modo quanto ao direito de sua propriedade. Imperam questões culturais que colocam as mulheres à margem desse direito, mesmo que ao longo das suas vidas tenham nelas e através delas manifestado suas feminilidades.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Referências

ALUEDE, C. O. Gender Roles in Traditional Music Practice: Survey of the Esan in edo State, Nigeria. Stud. Tribes Tribal, v. 3, n.1, p. 57-60, 2005.

ASSOCIAÇÃO PARA COOPERAÇÃO E DESENVOVIMENTO (ACTUAR). Integração de uma abordagem de género na gestão de recursos hídricos e fundiários: Angola, Cabo Verde, Moçambique e Timor Leste. Coimbra: ACTUAR, 2010

AUGÉ, M. Os Domínios do Parentesco: Filiação, aliança matrimonial, residência. Lisboa: Edições 70, 1978. BATALHA, L. Breve análise sobre o parentesco como forma de organização social. Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, v.2 1995, pp. 751-762.

BLANCO, E. R; DOMINGOS, M. H. Tradição, Cultura e Gênero no Programas de Desenvolvimento. Maputo: Fórum da Mulher/OXFAMS, 2008.

CAPELA, J. Moçambique pela sua História. Ribeirão/Portugal: Centro de Estudos Africanos a Universidade do Porto, 2010.

CARDOSO, D. M. Catadoras de Caranguejo e saberes tradicionais na conservação de manguezais da Amazônia Brasileira. Estudos Feministas, no 15, v.2, 2007 Florianópolis, p.485-490.

DEI, G. J. S. African Indigenous Proverbs and the Institucional and Pedagogic Relevance for Youth Education: Lesson from Kiembu of Kenya and Igbo of Nigeria. Journal of Education and Training, v.1, n.1, 2014. Disponível em: http://dx.doi. org/10.5296/jet.v1i1.4708. Acesso em: 12 de Maio de 2016.

DURKHEIM, E. As Regras do Método Sociológico. São Paulo: Editora Martin Claret, 2003.

DURKHEIM, E.; MAUSS, M. Algumas formas primitivas de classificação. Contribuição para o estudo das representações coletivas. Ensaios de Sociologia, Mauss, M. São Paulo: Perspectiva, 2005, pp.399-455.

ELIADE, M. Mito e Realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1972.

EVANS-PRITCHARD, E.E. Bruxária, oráculo e magia entre os Azande. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

GADAMER, H-G. Verdade e Método: traços fundamentais de uma hermenêutica filosófica. 3 ed. Petrópolis/Rio de Janeiro: Vozes, 1997.

GEERTZ, C. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.

GODOY, J. O Mito, o Ritual e o Oral. Petropolis/RJ: Vozes, 2012.

GONÇALVES, C. Contos e Lendas. Maputo: Instituto Nacional de Livro e do Disco, 1980.

HEILBORN, M. L. Gênero e identidade sexual em contexto igualitário. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2004.

LÉVI-STRAUSS, C. O Pensamento Selvagem. Campinas/São Paulo: Papirus, 1989.

MAUSS. M. Mentalidade Arcaica e Categorias de Pensamento [Categorias coletivas de pensamento e liberdade]. Ensaios de Sociologia, MAUSS, M. São Paulo: Perspectiva, 2005, pp.371-398

MOTTA-MAUÉS, M. A. Peixe de Homem/peixe de Mulher (?): repensando gênero na literatura acadêmica sobre comunidades pesqueiras no Brasil. Etnografia, n. 3, v.2, p. 377-399, 1999.

MOTTA-MAUÉS, M. A. Trabalhadeiras e Camaradas: relações de gênero, simbolismo e ritualização numa comunidade amazônica. Belém: Gráfica e Editora Universitária/UFPA, 1993.

Oliveira, R. C. Identidade, Etnia e Estrutura Social. São Paulo: Pioneira, 1976.

OSÓRIO, C. Sociedade Matrilinear em Nampula, estamos a falar do passado. Outras Vozes, p.16: 9-12, 2006

RODRIGUES, Maria Eugénia. As donas de prazos do Zambeze. Políticas imperiais e estratégias locais. VI Jornada Setecentista: Conferências e comunicações, Pereira, M. R. M. (ed.), Curitiba, Aos Quatro Ventos/Cedop, pp. 15-34

ROSALDO, M. Z. A Mulher, a Cultura e a Sociedade: Uma revisão teórica. A Mulher, a Cultura e a Sociedade, Rosaldo, M. Z. e Lamphere, L. (org.) Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, pp.33-64

SSETUBA, Isaac. The Hold of Patriarchy: an appraisal of the gender proverb in modern gender relations. Gender Literature and Religion in Africa, Roux, E. L. et al. Dakar: Codersia, 2005, pp.37-15.

WYNTER, P. Propriedade, mulheres pescadoras e luta pelos direitos da mulher em Moçambique. Estudos Moçambicanos, no 10, 1991, p.7-17.

Downloads

Publicado

2026-01-09

Como Citar

DOMINGOS BRAÇO, António. Às margens: as relações entre as mulheres, o trabalho e o direito à terra em Moçambique: On the margins: relations between women, work and the right to land in Mozambique. Aquila, [S. l.], n. 18, p. 20–25, 2026. Disponível em: https://ojs.uva.br/index.php/revista-aquila/article/view/708. Acesso em: 13 maio. 2026.

Edição

Seção

Dossiê Temático