Revista Áquila, n. 35, e35004, 2026
ISSN: 1414-8846 | E-ISSN: 2317-6474

Inferno liso, falha criadora

Smooth hell, creative fault

Infierno liso, falla creadora

Nadir Vilardo
Katia Puente
Recebido em 12 de dezembro de 2025.
Aprovado em 02 de julho de 2026.

Nadir Vilardo — Filósofa. Mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Universidade Veiga de Almeida. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-8566-2354.

Katia Puente — Socióloga. Doutora em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Universidade Veiga de Almeida. E-mail: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6998-7021.

RESUMO

Este artigo propõe uma reflexão sobre a afirmação freudiana “a anatomia é o destino”, à luz da releitura de Lacan. Ao retomar os fundamentos do complexo de Édipo e da castração, o texto desloca o enfoque da diferença anatômica para a estrutura da linguagem, colocando em destaque a função fálica como operador simbólico que regula o desejo e a sexuação. A partir das noções de significante, objeto a e gozo, o artigo reflete sobre a forma como o sujeito se inscreve na estrutura e como responde à perda fundadora do simbólico. A chamada escolha é revista como uma escolha forçada, determinada pelo modo como saber, gozo e objeto foram apresentados pelo Outro. A interdição do gozo é pensada como uma condição universal de entrada na linguagem e, ao mesmo tempo, como o que funda a singularidade do sintoma. Por fim, sustenta-se que o confronto com a impossibilidade, e não sua negação, pode abrir espaço para um desejo menos alienado, para a invenção e para a realização de um ato verdadeiro.

Palavras-chave: Anatomia. Destino. Falo. Simbólico. Ato.

ABSTRACT

This article proposes a reflection on Freud’s assertion, “anatomy is destiny,” considering Lacan’s rereading. By revisiting the foundations of the Oedipus complex and castration, the text shifts the focus from anatomical difference to the structure of language, highlighting the phallic function as a symbolic operator that regulates desire and sexuation. Drawing on the notions of the signifier, object a, and jouissance, the article examines how the subject is inscribed within the structure and how it responds to the founding loss inherent to the symbolic order. What is commonly referred to as choice is reconsidered as a forced choice, determined by how knowledge, jouissance, and the object are presented by the Other. The prohibition of jouissance is conceived both as a universal condition for entry into language and as what grounds the singularity of the symptom. Finally, the article argues that confronting impossibility, rather than denying it, can open space for a less alienated desire, for invention, and for the realization of a genuine act.

Keywords: Anatomy. Destiny. Phallus. Symbolic. Act.

RESUMEN

Este artículo propone una reflexión sobre la afirmación freudiana «la anatomía es el destino», a la luz de la relectura de Lacan. Al retomar los fundamentos del complejo de Edipo y de la castración, el texto desplaza el enfoque de la diferencia anatómica hacia la estructura del lenguaje, destacando la función fálica como operador simbólico que regula el deseo y la sexuación. A partir de las nociones de significante, objeto a y goce, el artículo reflexiona sobre la forma en que el sujeto se inscribe en la estructura y sobre cómo responde a la pérdida fundadora de lo simbólico. La llamada elección es revisada como una elección forzada, determinada por el modo en que el saber, el goce y el objeto fueron presentados por el Otro. La interdicción del goce es pensada como una condición universal de entrada en el lenguaje y, al mismo tiempo, como aquello que funda la singularidad del síntoma. Finalmente, se sostiene que el enfrentamiento con la imposibilidad, y no su negación, puede abrir espacio para un deseo menos alienado, para la invención y para la realización de un acto verdadero.

Palabras clave: Anatomía. Destino. Falo. Simbólico. Acto.

INTRODUÇÃO

A conhecida frase de Freud (1924/2011, p. 211), “a anatomia é o destino” (Die Anatomie ist das Schicksal), tem, ao longo do tempo, provocado inúmeras interpretações, defesas e contestações. Se, por um lado, essa máxima parece inscrever a diferença sexual em termos biológicos, por outro, o próprio Freud viria a relativizá-la em formulações posteriores, ao admitir que a masculinidade e a feminilidade não se deixam capturar pela anatomia. Essa tensão funda uma das questões mais férteis da psicanálise: o que define a posição sexuada do sujeito? A partir dessa pergunta, este artigo propõe uma construção teórica que desloca o foco da anatomia para a linguagem, sustentando a hipótese de que a impossibilidade de fechamento do simbólico, longe de representar um déficit, constitui a própria condição da invenção subjetiva, do desejo e do ato. Trata-se, portanto, de interrogar de que modo a sexuação, o gozo e o sintoma se organizam não a partir de uma determinação biológica positiva, mas da relação estrutural do sujeito com a falta. Ao retomar conceitos como o falo simbólico, o significante, o objeto a e a função fálica, busca-se compreender como o sujeito se inscreve na estrutura da linguagem, como se posiciona frente ao gozo e de que modo o sintoma emerge como resposta singular à perda constitutiva instaurada pelo simbólico. A noção de escolha da neurose é interrogada a partir da ideia de uma escolha forçada, efeito das marcas simbólicas deixadas pelo Outro. O fio que atravessa o texto é a relação entre estrutura, desejo e falta, sustentando a hipótese de que o sujeito só pode criar algo a partir da incompletude. A castração, nesse sentido, deixa de ser um limite paralisante para tornar-se condição ética da invenção e do ato.

Do ponto de vista metodológico, este artigo adota uma abordagem teórico-conceitual, fundamentada na análise interpretativa de textos de Freud e Lacan, bem como de comentadores que problematizam a sexuação, o falo e a estrutura do desejo. Não se trata de uma pesquisa empírica, mas de um trabalho de articulação conceitual, no qual trechos das obras de referência são retomados, tensionados e recolocados em novas relações para iluminar o problema central: de que modo o sujeito se inscreve na posição sexuada e como a anatomia, o simbólico e o gozo entram em jogo nessa operação. A metodologia segue o procedimento clínico-interpretativo característico da psicanálise, orientado pela leitura estrutural lacaniana, trabalhando por aproximações, cortes e deslocamentos conceituais sem pretender oferecer respostas totalizantes, mas construindo uma leitura possível a partir do entrelaçamento dos conceitos. Assim, a escolha da neurose, a função fálica, o objeto a e o estatuto do significante são examinados como elementos estruturais, privilegiando a lógica interna dos textos e seus efeitos na teoria do sujeito.

A ANATOMIA EM QUESTÃO: DESLOCAMENTOS FREUDIANOS E A CRÍTICA LACANIANA

Será que a anatomia é o destino, como afirma Freud (Ibid.), “sem dar muitas explicações”? (Lacan, 1962-1963/2005, p. 196). O que pensar da provocação feita por Freud, em suas Conferências Introdutórias de 1933, quando convida aqueles que o ouvem a uma reflexão sobre o que faz de uma pessoa homem ou mulher? Assim diz: “[...] a proporção em que masculino e feminino se misturam, no ser individual, está sujeita a consideráveis variações [...] o que constitui a masculinidade ou feminilidade é uma característica desconhecida, que a anatomia não pode apreender” (Freud, 1933/2010, p. 265-266). Ele mudou de opinião entre uma formulação e outra? A afirmação de 1933 parece de fato contradizer ou, pelo menos, questionar a afirmação de 1924. Seria a declaração de 1933 um reconhecimento das limitações das explicações biológicas para questões de gênero e identidade sexual? Ao colocar em suspenso a ideia de que a anatomia define o destino de uma pessoa, Freud aponta para a possibilidade de fatores mais subjetivos e menos fenomenológicos que influenciam a escolha sexual. Essa posição é mais alinhada com a teoria lacaniana do Édipo, metáfora paterna, e com as perspectivas sociais da atualidade em relação à complexidade da sexualidade de cada sujeito e das múltiplas articulações do desejo. Lacan

(1962-1963/2005, p. 259) propõe uma leitura surpreendente na aula XVII do Seminário 10, em 1963:

Freud nos diz que a anatomia é o destino. Vocês sabem que, em certos momentos, ergui-me contra essa formulação, pelo que ela pode ter de incompleto. Mas ela se torna verdadeira se atribuirmos ao termo anatomia seu destino estrito e, digamos etimológico, que valoriza a ana-tomia, a função de corte. Tudo o que sabemos de anatomia está ligado, de fato, à dissecação. O destino, isto é, a relação do homem com essa função chamada desejo, só adquire toda a sua animação na medida em que é concebível o despedaçamento do próprio corpo, esse corte que é o lugar dos momentos de eleição de seu funcionamento.

O complexo de Édipo freudiano é mal interpretado. Por isso, durante toda a obra de Lacan, é possível ver o seu esforço para situar o complexo de Édipo e suas articulações com outros conceitos, considerando o Real, o Simbólico e o Imaginário. O complexo de Édipo, o complexo de castração e suas consequências para o sujeito deixaram de ser uma questão de papai e mamãe, da relação incestuosa com a mãe e de rivalidade com o pai. A anatomia não é o destino e o falo não é o pênis, sendo este último apenas uma representação imaginária do falo. No texto “A organização genital infantil” (Freud, 1923/2011, p. 171), encontramos uma reflexão sobre as consequências da diferença entre o Édipo na menina e no menino, a consideração da angústia de castração como ponto nodal de sua resolução e a colocação da ideia do falo como o objeto do desejo: “[...] para ambos os sexos, apenas um genital, o masculino, entra em consideração”. Não é possível compreender esses conceitos, em toda a sua abrangência e complexidade, se o Simbólico não for considerado.

O GOVERNO DO FALO: ESTRUTURAS, GOZO E SEXUAÇÃO

A verdadeira essência do que foi desenvolvido por Freud na teoria do complexo de Édipo e no complexo de castração está na estrutura simbólica que funda e orienta o desejo no que está submetido à dialética falo-castração. O valor simbólico atribuído ao falo se deve à sua característica de não estar preso a nenhum objeto e, ao mesmo tempo, poder ligar-se a muitos. Não se trata de um falo no sentido de existir ou não existir, mas de um falo simbólico, isto é, um significante. O falo simbólico, em posição de significante mestre, é o que funda a Lei simbólica a partir da castração e regula a matriz dos modos possíveis de gozo, ao mesmo tempo em que a castração implica a impossibilidade de um objeto empírico ser absolutamente adequado ao gozo e ao desejo.

O significante e a perda do objeto

A característica principal do desejo é ser desprovido de objetificação, pois ele é necessariamente sem objeto. O desejo é desejo de nada nominável, é desejo de desejo e nada mais. É o ser falante que exige o suporte do objeto e o faz existir em três dimensões na experiência fenomenológica. O desejo é a pura revelação de um vazio, segundo Kojève (2002, p. 12):

O desejo como revelação de um vazio, como presença da ausência de uma realidade, é essencialmente diferente da coisa desejada, diferente de uma coisa, diferente de um Ser real estático e dado que se mantém eternamente na identidade consigo mesmo.

A falta não é disso nem daquilo. A falta é estrutural, isto é, uma condição a priori para a constituição do sujeito, do mundo dos objetos e do desejo. A Lei simbólica determina a conduta do sujeito, sem possibilidade de uma inversão. Entretanto, para Lacan (1955-1956/1988), a Lei simbólica está a serviço do desejo. Mas de que desejo? Para pensar essa questão, é fundamental observar a noção de significante puro. O significante puro é o sinal de uma ausência. Significantes puros são desprovidos de força denotativa; eles não denotam nenhuma referência fora da cadeia simbólica. “Todo verdadeiro significante é, enquanto tal, um significante que não significa nada” (Ibid., p. 217). E “quanto mais o significante nada significa, mais é indestrutível” (Ibid.). Segundo Lacan (Ibid., p. 196-197),

O significante é um sinal que não remete a um objeto, mesmo sob a forma de rasto, embora o rasto anuncie, no entanto, o seu caráter essencial. Ele é também o sinal de uma ausência. Mas, na medida em que ele faz parte da linguagem, o significante é um sinal que remete a um outro sinal, que é como tal estruturado para significar a ausência de outro sinal.

E, dezessete anos mais tarde, Lacan (1971-1972/2012, p. 217) reafirma a mesma lógica da estrutura em um flashback do Seminário 3:

Tudo o que eu disse naquele momento, no qual não se pode dizer que estava realmente na moda, ficou cunhado num metal em que nada tenho a retocar. O que digo a esse respeito, muito precisamente, é que o significante se distingue por não ter nenhuma significação. Digo-o de forma decisiva, porque, naquele momento, era preciso eu me fazer entender por meu auditório.

Nesse sentido, o significante puro pode ser compreendido como a impossibilidade de a linguagem adequar-se totalmente às coisas sensíveis. Ele é um elemento da linguagem

que não representa coisa alguma, seja um objeto ou qualquer conteúdo fora do campo simbólico. Ele não denota, não remete a algo empírico e sua função na estrutura é a de marcar uma ausência. Sua eficácia está em sua opacidade, em sustentar uma diferença e instaurar uma posição na cadeia simbólica. O significante elimina a possibilidade de uma relação unívoca. É justamente dessa impossibilidade de correspondência plena entre linguagem e objeto que decorre a centralidade da falta na teoria psicanalítica. Se o significante nunca alcança a Coisa em sua totalidade, o desejo também não pode encontrar um objeto capaz de satisfazê-lo definitivamente. A lógica fálica nasce dessa impossibilidade estrutural e organiza as tentativas do sujeito de responder a ela. Não é possível, portanto, formalizar a absoluta identidade entre o desejo e os objetos do mundo. Um objeto que completa poderia, em aparência, ser uma definição do conceito de falo; mas ele é, na verdade, apenas um recurso para lidar com a falta. O falo é, portanto, apenas o símbolo de uma negatividade, já que ele nada pode revelar sobre o objeto. Há, portanto, uma inadequação radical entre o desejo do sujeito e a satisfação prometida pelos objetos encontrados através da lógica narcísica do imaginário, sustentada pelo falo como imagem de completude, falo imaginário. Impossível alcançar um saber positivo sobre esse objeto adequado ao gozo. Segundo Lacan (1972-1973/1985, p. 103), trata-se de um saber impossível, transmitido na falta,

[...] pois que há o inconsciente – algo que transcende, que transcende verdadeiramente, e que não é outra coisa senão aquilo que ela habita, essa espécie, isto é, a linguagem? Não é mesmo, sim, caridade, anunciar-lhe [aos seres falantes] a nova de que, naquilo que é sua vida cotidiana, ela tem, com a linguagem, um suporte maior da razão do que poderia parecer e que a sabedoria, objeto inatingível de uma vã perseguição, já está nela?

Contudo, o sujeito só pode ser reconhecido como sujeito desde que assuma sua identificação com uma Lei que é pura forma vazia, desprovida de conteúdo positivo: a Lei fálica paterna, identificação do desejo à Lei, a metáfora paterna. Mas há o real, esse impossível e sua expulsão como condição necessária ao surgimento do significante fálico. A distância do sujeito em relação ao real é própria da estrutura, é condição para a constituição do falasser. No texto “A significação do falo”, Lacan (1958/1998, p. 693) diz que fatos clínicos demonstram uma relação do sujeito com o falo que se estabelece independentemente da diferença anatômica entre os sexos. O falo é, portanto, um regulador que tem relação com a ideia de medida comum, ratio ou razão, como na matemática, cuja função é operar na

estruturação dinâmica dos sintomas. O falo tem, portanto, um papel fundamental na instauração de uma posição subjetiva.

A função fálica e a sexuação

É nesse entrelaçamento de desejo, Lei e linguagem que Lacan formula a função fálica, núcleo da partição do gozo e das fórmulas da sexuação. A função fálica opera uma partição no campo do gozo, dividindo-o entre dois sexos identificáveis: Homem e Mulher. Desde cedo, o falo habita o ensino de Lacan, mas é no Seminário XX, em 1972, que ele o eleva à condição de função, formalizada por meio das fórmulas da sexuação. Nelas, encontram-se não apenas a leitura do postulado freudiano da primazia do falo para todo ser de fala, mas também o apontamento de um ponto cego na teoria de Freud: o continente negro do feminino, aquele território opaco e inquietante que Lacan nomeia como não-todo. Do lado homem, o todo fálico se organiza em torno da exceção, pois, embora todo ser de fala esteja submetido à lei fálica, há ao menos um que escapa a essa submissão, instaurando o ponto de exceção à universal. Do lado da mulher, inscreve-se uma lógica diversa: não há exceção, nem totalidade. A teoria freudiana permite que qualquer ser falante, independentemente de seus atributos anatômicos, se inscreva nessa vertente. Mas aqui, nenhuma totalização é possível.

O não-todo e o resto estrutural

Há na lógica fálica uma tentativa de neutralizar o não-todo, mas ele retorna, em seu aspecto real, na formação de sintomas coletivos e individuais. A estrutura neurótica tenta mascarar a falta característica do não-todo, pois a neurose não quer saber da castração. O sujeito neurótico, portanto, pensa o não-todo como impotência fálica e tem como imperativo alcançar um falo sem falha, isto é, busca fazer “Um” sem resto. No entanto, como demonstrado por Gödel, em sua teoria da incompletude, todo sistema lógico consistente carrega em si a impossibilidade de se completar inteiramente; há sempre um ponto que escapa, uma verdade que não se deixa formalizar. Laurent aproxima essa impossibilidade estrutural da formulação de Gödel ao lembrar que, mesmo em sistemas formais consistentes, “existem sempre proposições verdadeiras que não são demonstráveis. A verdade, portanto, não pode reduzir-se ao saber” (Laurent, 2016, p. 29). Também na estrutura subjetiva há um ponto que resiste à formalização integral, impedindo o

fechamento completo do campo simbólico. Nesse ponto, a verdade se apresenta em forma de enigma, “algo que nos força a responder, na qualidade de perigo mortal” (Lacan, 1969-1970/1992, p. 108-109). Assim também na sexuação: por mais que o sujeito neurótico tente totalizar sua posição fálica, resta sempre um vazio: o não-todo retorna, irredutível, como resto estrutural.

Fantasia neurótica e escolha forçada

O sintoma neurótico é, portanto, o retorno da verdade. É dessa forma que o objeto a está presente na fantasia. É no roteiro de gozo produzido pela fantasia, mistura de significantes destacados, de imagens e experiências de gozo, que o sujeito tenta se aproximar do gozo, cristalizando-o. Uma tentativa sempre marcada por falhas. Como observa Laurent, o sujeito tenta aproximar-se do gozo por meio da fantasia, cristalizando-o “num objeto ou num roteiro mais ou menos ritualizado”. Entretanto, essa tentativa permanece necessariamente falha, “pois o corpo não dispõe, efetivamente, de um local estável para acolher o gozo” (Laurent, 2016, p. 19). O objeto da fantasia não estabiliza definitivamente o gozo; ele apenas organiza uma aproximação sempre parcial e equívoca em relação ao real. O objeto a da fantasia é uma interpretação do objeto causa de desejo, face real do significante fálico, que já não é mais um real puro, e sim um real que se articula com o simbólico e com o imaginário. Mas, enquanto na histeria o sujeito se coloca a serviço do mestre-falo, reforçando sua autoridade, ao mesmo tempo em que se oferece como objeto, como resto que escapa à captura imaginária, na obsessão o sujeito também se coloca a serviço do falo, mas tentando dissimular, ou seja, esconder o resto, a falta ou a castração. O significante mestre, em suas duas faces, quando investido pelo Ideal do eu, I(A), torna-se um referente fálico, daquilo que o sujeito acredita dever ser, mas que ali aparece sempre deslocado. O I(A) encobre a face do real, o traço singular de gozo que permanece como marca, uma cicatriz que subsiste pelo tempo que o corpo viver e impulsiona o sujeito em direção ao gozo prometido. A castração simbólica divide os sujeitos entre homem e mulher. E, na escolha do sexo, o sujeito precisa decidir, escolher, exatamente no ponto em que a significação fálica deixou um resto. Isso implica que o sujeito precisa se situar em uma dessas posições, assumindo um lado, mas sem saber o que a escolha implica, sem saber o que significa uma

posição e outra, sem saber o que elas são. Alguns sujeitos parecem sofrer mais com a questão do resto. Essa lógica também se reflete naquilo que Freud chamou de “escolha da neurose”. No entanto, o que Freud concebeu como escolha voluntária ou determinada por conflitos morais, Lacan subverte: não se trata de uma escolha livre, mas de uma escolha forçada, estruturada a partir das ofertas, ou da falta, que o sujeito recebeu do Outro. Trata-se de uma escolha que não é feita pelo sujeito em termos conscientes ou deliberativos, mas de uma determinação estrutural que advém do modo como o saber, o gozo e o objeto a foram apresentados a ele no campo do Outro. A chamada “escolha” não é senão a fixação de uma posição subjetiva diante da perda estrutural que funda a entrada na linguagem. Freud, em “As neuropsicoses de defesa” (1894/2023), sustentava que a cisão do conteúdo da consciência seria efeito de um ato voluntário, de um “esforço da vontade” do paciente (Idem, p. 51). No manuscrito K, anexo à carta a Fliess de 1º de janeiro de 1896 (também denominado as neuroses de defesa ou conto de fadas natalino), Freud (1896/2016, p. 23) perguntava-se sobre o que determina a escolha da neurose, considerando-a como resultado de uma decisão psíquica, ainda que inconsciente. Lacan (1968-1969/2008), no entanto, ao reler esses textos, introduz uma torção decisiva: em vez de uma escolha do sujeito, há um posicionamento compulsório diante da estrutura, a partir das marcas deixadas pela relação com os desejos parentais e com o campo do Outro. Lacan (Idem, p. 321) articula o saber, o gozo e o objeto a com aquilo que determina a experiência do sujeito:

Seu único móbil, é claro, está sempre na maneira como se apresentaram os desejos no pai e na mãe, isto é, na maneira como eles efetivamente ofereceram ao sujeito o saber, o gozo e o objeto a. É isso que nos deve incitar, por conseguinte, a não apenas explorar a história do sujeito, mas o modo de presença pelo qual lhe foi oferecido cada um dos três termos. É aí que reside o que chamamos impropriamente de escolha da neurose, ou de escolha entre psicose e neurose. Não houve escolha, porque a escolha já fora feita no nível do que foi apresentado ao sujeito, e isso só é demarcável e perceptível em função dos três termos, tal como vimos tentando destacá-los aqui. [grifo nosso].

Ora, nesse sentido, tudo depende de como o sujeito foi marcado pelo Outro. A essa “escolha forçada” corresponde, portanto, uma determinada forma de gozar que se inscreve como resposta ao real. O sujeito se vê confrontado com uma ausência inaugural, a perda que funda o simbólico e, diante dela, responde com uma organização do gozo conforme os recursos simbólicos disponíveis. Essa resposta é, na verdade, o efeito do que lhe foi

apresentado: a maneira como o Outro lhe ofertou saber, objeto e gozo delimita o campo de possíveis identificações e estruturas defensivas. Desse modo, não há propriamente uma escolha entre neurose e psicose, mas uma determinação que se desenha no cruzamento entre a inscrição da falta e o modo como o sujeito se posiciona frente a ela. A imposição do discurso do mestre distingue os sexos. O desconhecimento da falta e da estrutura como incompleta faz parte da constituição do sujeito para que ele possa ser reconhecido na linguagem. O discurso do mestre ou discurso do Outro é o discurso do inconsciente que estabelece a hierarquia do falo. A interdição operada pela castração é, na verdade, consequência da existência da linguagem e de sua anterioridade lógica em relação ao sujeito. A verificação de que o gozo é interditado a quem fala leva Lacan a repensar o complexo de Édipo como o processo pelo qual o sujeito se posiciona em relação a uma interdição de gozo que está presente e operante desde sempre, ou seja, não é o pai que determina a castração, mas sim a linguagem: trata-se da castração produzida estruturalmente pela linguagem. Nesse sentido, Éric Laurent propõe um percurso que apresenta o trauma do corpo por uma língua anterior à linguagem (Laurent, 2016, p. 14), já que, desde que há linguagem, somos todos castrados. O gozo é interditado a quem fala. Não se trata de que um dia houve um gozo pleno que foi interditado pela cultura, mas sim de que o gozo está interditado a quem fala. A castração deixa, portanto, de ser compreendida como efeito contingente da autoridade paterna para situar-se como consequência estrutural da entrada do sujeito na linguagem. O real também está presente desde o início como esse resto inapreensível pelo simbólico. Na neurose, a castração é um recurso universal para lidar com essa falta. Na psicose, trata-se de outra lógica: o sujeito psicótico depende de uma construção solitária por estar fora da lógica do falo. A falta de referência fálica na psicose situa o sujeito no lado do não-todo, o que caracteriza o empuxo à mulher nos sujeitos psicóticos. Esse resto inapreensível pelo simbólico, longe de ser apenas um limite, é também o que permite a invenção. A falha do simbólico é, paradoxalmente, sua própria condição de vitalidade. É precisamente porque o simbólico não consegue absorver integralmente o real que o sujeito não permanece totalmente encerrado na repetição automática do sentido. O resto que escapa à simbolização impede o fechamento completo da estrutura e abre espaço

para a invenção, para o sintoma e para o ato, pois é o que impulsiona a força criadora. O simbólico sem resto seria um universo fechado. Seria, portanto, um mundo onde tudo é previsível e absolutamente morto, sem invenção, sem arte, sem amor, sem sintoma. Seria o universo totalizado, totalizante, sem falta... Um inferno liso. “No inferno nós já estamos”, diz Lacan (1968-1969/2008, p. 148). Que, ao menos, ele não seja liso, mas levemente agitado. Se o universo simbólico não se fecha, se não há saber derradeiro, então há possibilidade de criação, de novidade, de surpresa, de espanto. O excesso de sentido e certezas anula as potencialidades novas que só podem surgir mediante a queda da máscara de sentido e das muletas imaginárias que obturam a falta. O confronto com a castração pode ser interpretado como uma experiência de impotência. A experiência é vivida assim por aqueles que alimentam, ingenuamente, em seu imaginário, com suas identificações narcísicas, a fantasia de onipotência ou a crença em um Bem supremo. A verdadeira escolha requer um verdadeiro ato. No ato, o sujeito pode romper com o sentido dado, um sentido comum e normatizante. No ato, o sujeito trai a Lei dada e pode redefinir o seu destino, sabendo que a escolha é sua em alguma medida. Através do reconhecimento do real, aquilo sem o qual a relação sexual poderia vir a existir, a impotência dá lugar à impossibilidade. A perspectiva da impossibilidade pode dar espaço para o restabelecimento de um desejo sem onipotência, menos alienado, capaz de consentir com a falta e renunciar à fantasia de completude. A impossibilidade não pertence exclusivamente ao sujeito como falha individual ou injustiça contingente; ela é própria da estrutura. É justamente dessa impossibilidade constitutiva que podem surgir o desejo, a invenção e a possibilidade de um ato.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A travessia proposta neste artigo partiu da crítica à ideia de que a anatomia determina o destino subjetivo, mostrando como é a linguagem, e não o corpo tomado como dado natural, que funda o sujeito e organiza sua relação com o desejo e o gozo. Ao deslocar o debate da diferença anatômica para a estrutura simbólica, buscou-se sustentar que o destino, em psicanálise, não se confunde com determinação biológica nem com fatalismo, mas com o modo singular pelo qual cada sujeito responde à falta constitutiva inscrita pela linguagem.

A releitura lacaniana do complexo de Édipo permitiu situar o falo como significante e não como órgão, operador simbólico que regula a sexuação e os modos possíveis de gozo, mas que, ao fazê-lo, introduz um resto irredutível. Esse resto, efeito da impossibilidade de totalização do simbólico, marca o ponto em que a estrutura falha, impedindo qualquer fechamento do sentido. Longe de representar um déficit a ser corrigido, essa falha é precisamente o que torna possível a singularização do sujeito, sua invenção sintomática e a abertura para um desejo que não se confunde com a repetição imaginária da completude. Nesse contexto, a chamada escolha da neurose foi revisitada como uma escolha forçada. Se Freud ainda a concebia como um ato inconsciente do sujeito, Lacan demonstra que tal escolha é determinada pelo modo como o saber, o gozo e o objeto a foram apresentados ao sujeito pelo Outro. Trata-se menos de uma decisão e mais de um posicionamento estrutural diante da perda inaugural que acompanha a entrada na linguagem. No entanto, essa determinação não implica a anulação da dimensão ética do sujeito. Ao contrário, é justamente a partir desse ponto de determinação que se coloca a possibilidade de um ato. O ato, tal como pensado por Lacan, não se confunde com uma ação voluntária nem com a ilusão de liberdade soberana. Ele emerge no confronto com a impossibilidade estrutural, quando o sujeito deixa de interpretar a castração como impotência pessoal e passa a reconhecê-la como condição universal da existência falante. Essa passagem é decisiva: enquanto a impotência mantém o sujeito preso à queixa e à fantasia de um gozo pleno perdido, a impossibilidade permite uma reorientação ética do desejo. O ato implica, portanto, uma ruptura com o sentido já dado, com os ideais normativos e com as identificações que obturam a falta. A noção de “inferno liso”, evocada ao longo do texto, nomeia justamente o risco de um universo simbólico totalizado, sem falhas, sem restos e sem surpresa. Um mundo assim seria inteiramente previsível, fechado à criação, à arte e ao amor. Ao sustentar que a falha do simbólico é sua condição de possibilidade, este artigo defende que a incompletude não é um obstáculo, mas o motor da vida psíquica. É nela que o sujeito pode inventar novas formas de laço, novos modos de gozar e novas respostas ao real. Nesse sentido, o sintoma não aparece apenas como expressão de sofrimento individual, mas como acontecimento de corpo produzido no laço com a linguagem e com o Outro. Como afirma Laurent, “o

sintoma como acontecimento do corpo não condena a nenhum solipsismo ou individualismo. Ele advém num corpo tomado pela linguagem” (Laurent, 2016, p. 23). Por fim, ao recolocar a questão da anatomia, do destino e da escolha sob a ótica da estrutura, este artigo pretende contribuir para uma leitura da sexuação que não recaia nem no biologismo nem no relativismo absoluto. A psicanálise não oferece garantias identitárias nem promete soluções totais; ela sustenta, antes, a aposta de que, ao consentir com a falta e com a impossibilidade, o sujeito pode fazer algo singular com aquilo que lhe foi dado. É nesse ponto que o destino deixa de ser uma condenação e passa a se articular com a ética do desejo e com a possibilidade de um ato verdadeiro.

REFERÊNCIAS

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