Revista Áquila, n. 35, e35009, 2026
ISSN: 1414-8846 | E-ISSN 2317-6474
DOI: https://doi.org/10.61565/revista-aquila.i35.1069
Complicações neurossensoriais associadas ao uso da articaína em procedimentos
odontológicos: uma revisão narrativa da literatura
Neurosensory complications associated with articaine use in dental procedures: a narrative
literature review
Complicaciones neurosensoriales asociadas al uso de la articaína en procedimientos
dentales: una revisión narrativa de la literatura
Michelle Alonso Coutinho1
Gabriel Dias de Medeiros2
Marcela Baraúna Magno3
Andréa Vaz Braga Pintor 4
RESUMO
A anestesia local é essencial para o controle da dor na odontologia; no entanto, complicações
neurossensoriais, especialmente a parestesia que afeta os nervos lingual e alveolares inferiores, permanecem
eventos adversos clinicamente significativos. Esta revisão narrativa avaliou criticamente a associação entre
4% de articaína e distúrbios neurossensoriais na prática odontológica. Métodos: Uma busca abrangente no
PubMed, SciELO, LILACS Plus (via BVS) e Google Scholar foi realizada em maio de 2026. Vocabulário
controlado e termos em texto livre foram combinados para articaína/carticaína, efeitos adversos de
medicamentos, parestesia, paralisia facial, formicação e disestesia. Dos 320 registros identificados, 16
estudos atenderam a critérios pré-definidos de elegibilidade baseados em PICO após deduplicação e triagem.
Estudos envolvendo articaína combinada com outros anestésicos, modelos animais ou ambientes não
odontológicos foram excluídos. Resultados: Os estudos incluídos, publicados entre 1995 e 2026, abrangeram
ensaios clínicos randomizados e relatos de casos. Dados de farmacovigilância sugeriram relatos
desproporcionais de parestesia após 4% de articaína em comparação com 2% de lidocaína, com incidências
4Graduada em Odontologia pela Faculdade de Odontologia de Nova Friburgo, Especialista em
Odontopediatria pela Associação Brasileira de Odontologia – ABO-RJ, Especialista em Dentística pela
Faculdade de Odontologia São Leopoldo Mandic, Mestre em Odontologia (Clínica Odontológica) pela
Universidade Federal Fluminense – UFF, Doutora em Odontologia (Odontopediatria) pela Universidade
Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Pós-Doutorado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ.
E-mail: [email protected]. ORCID: 0000-0002-3323-7691.
3Graduada em Odontologia pela Universidade Federal do Pará – UFPA, Especialista em Prótese Dental pela
Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, Mestre em Odontologia pela Universidade Federal do
Pará – UFPA, Doutora em Odontologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e Especialista
em Odontopediatria pelo Instituto Orthodontic Internacional – IOI. E-mail: [email protected].
ORCID: 0000-0003-3618-190X.
2Graduando em Odontologia, pela Universidade Veiga de Almeida. E-mail: [email protected].
ORCID: 0009-0009-6414-7144.
1Graduada em Odontologia pela Faculdade de Odontologia de Campos dos Goytacazes, Especialista em
Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial pela Universidade Serra dos Órgãos – UNIFESO, Mestre em
Disfunção Temporomandibular e Dor Orofacial pela Universidade São Leopoldo Mandic – Campinas,
Doutoranda em Reabilitação Oral pela Universidade Veiga de Almeida. E-mail: [email protected].
ORCID: 0000-0003-2414-7739.
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estimadas de aproximadamente 1:609.000 e 1:1.100.000 injeções, respectivamente, e riscos relativos até 3,6
vezes maiores do que o esperado em termos de participação de mercado. Por outro lado, ensaios
randomizados prospectivos não identificaram diferenças estatisticamente significativas na neurotoxicidade
entre articaína e lidocaína. O nervo lingual representava 70–79% das lesões do nervo mandibular,
possivelmente devido à sua localização superficial e arquitetura predominantemente unifascicular. A maioria
dos estudos de farmacovigilância não relatou volume anestésico, duração dos sintomas ou controle adequado
para trauma cirúrgico, técnica de injeção e variação anatômica. Evidências da anestesia regional periférica na
medicina não demonstraram um sinal neurotóxico específico da articaína reproduzível. Conclusões: As
evidências atuais não apoiam neurotoxicidade intrínseca e exclusiva de 4% de articaína. As complicações
neurossensoriais provavelmente são multifatoriais, envolvendo vulnerabilidade anatômica, trauma por
agulha, técnica de injeção, concentração anestésica e volume administrado. A notificação desproporcional
pode refletir viés de notificação, uso preferencial em casos inflamatórios complexos e confusão relacionada a
procedimentos. São necessários estudos prospectivos com relato padronizado de dose, volume, duração dos
sintomas e lesão permanente versus temporária.
Palavras-chave: Articaína. Parestesia. Anestesia odontológica. Lesão nervosa. Neurotoxicidade.
Farmacovigilância.
ABSTRACT
Local anesthesia is essential for pain control in dentistry; however, neurosensory complications, particularly
paresthesia affecting the lingual and inferior alveolar nerves, remain clinically significant adverse events.
This narrative review critically evaluated the association between 4% articaine and neurosensory
disturbances in dental practice. Methods: A comprehensive search of PubMed, SciELO, LILACS Plus (via
BVS), and Google Scholar was conducted in May 2026. Controlled vocabulary and free-text terms were
combined for articaine/carticaine, adverse drug effects, paresthesia, facial paralysis, formication, and
dysesthesia. Of 320 records identified, 16 studies met predefined PICO-based eligibility criteria after
deduplication and screening. Studies involving articaine combined with other anesthetics, animal models, or
non-dental settings were excluded. Results: Included studies, published between 1995 and 2026, comprised
pharmacovigilance analyses, randomized clinical trials, and case reports. Pharmacovigilance data suggested
disproportionate reporting of paresthesia after 4% articaine compared with 2% lidocaine, with estimated
incidences of approximately 1:609,000 and 1:1,100,000 injections, respectively, and relative risks up to 3.6
times higher than expected by market share. Conversely, prospective randomized trials did not identify
statistically significant differences in neurotoxicity between articaine and lidocaine. The lingual nerve
accounted for 70-79% of mandibular nerve injuries, possibly owing to its superficial location and
predominantly unifascicular architecture. Most pharmacovigilance studies did not report anesthetic volume,
symptom duration, or adequately control for surgical trauma, injection technique, and anatomical variation.
Evidence from peripheral regional anesthesia in medicine has not demonstrated a reproducible
articaine-specific neurotoxic signal. Conclusions: Current evidence does not support intrinsic, exclusive
neurotoxicity of 4% articaine. Neurosensory complications are likely multifactorial, involving anatomical
vulnerability, needle trauma, injection technique, anesthetic concentration, and administered volume.
Disproportionate reporting may reflect reporting bias, preferential use in complex inflammatory cases, and
procedure-related confounding. Prospective studies with standardized reporting of dose, volume, symptom
duration, and permanent versus temporary injury are needed.
Keywords: Carticaine. Paresthesia. Dental anesthesia. Nerve injury. Neurotoxicity. Pharmacovigilance.
RESUMEN
La anestesia local es esencial para el control del dolor en odontología; Sin embargo, las complicaciones
neurosensoriales, especialmente la parestesia que afecta a los nervios linguales e inferiores, siguen siendo
eventos adversos clínicamente significativos. Esta revisión narrativa evaluó críticamente la asociación entre
el 4% de la articaína y las alteraciones neurosensoriales en la práctica dental. Métodos: En mayo de 2026 se
realizó una búsqueda exhaustiva en PubMed, SciELO, LILACS Plus (a través de BVS) y Google Scholar. Se
combinaron vocabulario controlado y términos de texto libre para articaína/carticaína, efectos adversos de
medicamentos, parestesia, parálisis facial, formicación y disestesia. De los 320 registros identificados, 16
estudios cumplieron criterios de elegibilidad predefinidos basados en PICO tras la deduplicación y el cribado.
Se excluyeron estudios que involucraban articaína combinada con otros anestésicos, modelos animales o
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entornos no dentales. Resultados: Los estudios incluidos, publicados entre 1995 y 2026, comprendieron
análisis de farmacovigilancia, ensayos clínicos aleatorizados e informes de casos. Los datos de
farmacovigilancia sugirieron una notificación desproporcionada de parestesia tras un 4% de la articaína frente
al 2% de lidocaína, con incidencias estimadas de aproximadamente 1:609.000 y 1:1.100.000 inyecciones,
respectivamente, y riesgos relativos hasta 3,6 veces superiores a los esperados por cuota de mercado. Por el
contrario, los ensayos aleatorizados prospectivos no identificaron diferencias estadísticamente significativas
en la neurotoxicidad entre la articaína y la lidocaína. El nervio lingual representaba entre el 70 y el 79% de
las lesiones del nervio mandibular, posiblemente debido a su ubicación superficial y a su arquitectura
predominantemente unifascicular. La mayoría de los estudios de farmacovigilancia no informaron volumen
anestésico, duración de los síntomas ni un control adecuado para traumatismos quirúrgicos, técnicas de
inyección y variaciones anatómicas. La evidencia de la anestesia regional periférica en medicina no ha
demostrado una señal neurotóxica específica reproducible de la articaína. Conclusiones: La evidencia actual
no apoya una neurotoxicidad intrínseca y exclusiva del 4% de articaína. Las complicaciones neurosensoriales
probablemente sean multifactoriales, implicando vulnerabilidad anatómica, traumatismo por aguja, técnica de
inyección, concentración anestésica y volumen administrado. La notificación desproporcionada puede
reflejar sesgos de reporte, uso preferencial en casos inflamatorios complejos y confusión relacionada con el
procedimiento. Se necesitan estudios prospectivos con informes estandarizados de dosis, volumen, duración
de los síntomas y lesión permanente frente a temporal.
Palabras clave: Carticaine. Parestesia. Anestesia dental. Lesión nerviosa. Neurotoxicidad.
Farmacovigilancia.
INTRODUÇÃO
A anestesia local é reconhecida como a técnica farmacológica mais segura e eficaz
para o manejo da dor na odontologia, sendo indispensável para intervenções clínicas e
cirúrgicas. No entanto, embora a incidência geral de complicações graves seja
extremamente baixa, a ocorrência de lesões nervosas continua sendo um dos eventos mais
impactantes para a qualidade de vida dos pacientes e um dos mais temidos pelos
profissionais (Daubländer; Müller; Lipp, 1997). Tais lesões se manifestam
predominantemente como parestesia, disestesia ou hiperestesia, afetando principalmente
ramos do nervo trigêmeo, com envolvimento particular dos nervos alveolar inferior e
lingual (Ghafoor et al., 2023). O nervo lingual e, em menor grau, o nervo alveolar inferior
são as estruturas mais suscetíveis e à sua localização topográfica durante o bloqueio
anestésico convencional (Ghafoor et al., 2023; Renton et al., 2010).
Historicamente, a etiologia dessas alterações neurossensoriais tem sido atribuída a
traumas mecânicos diretos durante a perfuração, à compressão por edema ou hemorragia
intraneural e à neurotoxicidade química de agentes anestésicos (Pogrel, 2012). Estudos
clássicos sugerem que qualquer solução anestésica tem potencial neurotóxico intrínseco se
depositada em contato direto com o feixe nervoso, especialmente em espaços anatômicos
confinados (Kim; Kim; Ahn, 2020; Neal et al., 2015). No entanto, a discussão sobre
segurança farmacológica se intensificou com a introdução de soluções de maior
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concentração, particularmente a articaína a 4% (Aquilanti et al., 2022; Haas; Lenon,
1995a).
Sintetizada em 1969 e amplamente disseminada desde a década de 1970, a articaína
difere de outras amidas pela presença de um anel tiofeno em sua estrutura molecular, além
de possuir uma ligação éster adicional (Aquilanti et al., 2022; Haas; Lenon, 1995a;
Snoeck, 2012; Hassan et al., 2011; Singh; Koul, 2024). Essa conformação confere alta
lipossolubilidade, capacidade excepcional de difusão tecidual e rápida metabolização
sistêmica pelas esterases plasmáticas, propriedades que garantem eficácia anestésica
superior e um perfil de toxicidade sistêmica favorável (Snoeck, 2012; Tan et al., 2023;
Yapp; Hopcraft; Parashos, 2011). Investigações epidemiológicas e notificações (ou relatos)
de farmacovigilância sugeriram uma correlação desproporcional entre o uso de articaína e
a incidência de parestesia persistente, alimentando um debate contínuo entre a toxicidade
química do medicamento e o trauma físico da técnica de bloqueio (Renton et al., 2010;
Neal et al., 2015; Hillerup; Jensen; Ersbøll, 2011).
Apesar da vasta literatura, persiste uma lacuna no consenso clínico: embora estudos
de vigilância indiquem sinais de alerta, ensaios clínicos randomizados frequentemente não
demonstram diferenças significativas nos perfis de segurança entre a articaína e a lidocaína
padrão (Renton et al., 2010; Piccinni et al., 2015; Martin et al., 2021). Essa divergência
demonstra a necessidade de uma análise crítica abrangente que pondere não apenas os
aspectos farmacológicos do medicamento e a neurotoxicidade intrínseca dos anestésicos
locais, mas também variáveis topográficas, o rigor da técnica operatória e o viés de reporte
(efeito Weber) inerente aos sistemas de vigilância em saúde.
O objetivo deste estudo é conduzir uma revisão narrativa da literatura sobre as
diversas complicações neurossensoriais associadas ao uso da articaína em procedimentos
odontológicos, investigando possíveis causas e explicações para sua ocorrência.
MATERIAIS E MÉTODOS
Para realizar essa revisão narrativa da literatura, foi feita uma busca nos bancos de
dados eletrônicos PubMed, SciELO, LILACS Plus (via VHL) e Google Scholar, em 26 de
maio de 2026. As estratégias de busca foram adaptadas às particularidades de cada banco
de dados, usando combinações de descritores controlados (termos MeSH) e palavras-chave
em texto livre.
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A principal estratégia usada no PubMed foi: Carticaine [MeSH Terms] OR
Carticain*[Title/Abstract] OR Articain*[Title/Abstract]) AND (((((Drug-Related Side
Effects and Adverse Reactions[MeSH Terms]) OR (“Drug-Related Side Effects and
Adverse Reactions”[Title/Abstract])) OR ((“paresthesia”[MeSH Terms]) OR
(paresthesia[Title/Abstract]))) OR ((Facial Paralysis[MeSH Terms]) OR (Facial
Paralysis[Title/Abstract]))) OR ((Formication*[Title/Abstract]) OR
(Dysesthesia*[Title/Abstract]))).
Nos outros bancos de dados, foi usada uma adaptação simplificada dos mesmos
cruzamentos, focando nos termos: Articaína, Carticaína, Efeitos Colaterais e Reações
Adversas Relacionadas a Medicamentos, Parestesia, Paralisia Facial, Formicação e
Disestesia. A Tabela 1 apresenta a estratégia completa de busca para cada banco de dados.
Tabela 1 – Estratégia de busca nas bases de dados selecionadas
Database
Search Strategy
PubMed
(www.ncbi.nlm.nih.gov/sites/pubmed)
(Carticaine[MeSH Terms] OR Carticain*[Title/Abstract]
OR Articain*[Title/Abstract]) AND (((((Drug-Related
Side Effects and Adverse Reactions[MeSH Terms]) OR
(“Drug-Related Side Effects and Adverse
Reactions”[Title/Abstract])) OR ((“paresthesia”[MeSH
Terms]) OR (paresthesia[Title/Abstract]))) OR ((Facial
Paralysis[MeSH Terms]) OR (Facial
Paralysis[Title/Abstract]))) OR
((Formication*[Title/Abstract]) OR
(Dysesthesia*[Title/Abstract])))
SciELO
(search.scielo.org)
Articaine AND paresthesia OR Facial Paralysis OR
Formication OR Dysesthesia
LILACS Plus
(via BVS – bvsalud.org)
Carticaine OR Articaine AND Drug-Related Side Effects
and Adverse Reactions OR paresthesia OR Facial
Paralysis OR Formication OR Dysesthesia
Google Scholar
(scholar.google.com.br)
Carticaine OR Articaine AND Drug-Related Side Effects
and Adverse Reactions OR paresthesia OR Facial
Paralysis OR Formication OR Dysesthesia
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
Critérios de Elegibilidade
Critérios de Inclusão
Para a formulação dos critérios de inclusão, foi adotada a estratégia PICO, definida
da seguinte forma:
• População (P): Humanos submetidos à anestesia local para procedimentos
odontológicos;
• Intervenção (I): Anestesia local odontológica usando sal anestésico articaína;
• Controle (C): Qualquer outra solução anestésica local dentária;
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• Desfecho (O): Ocorrência de complicações neurossensoriais (parestesia, disestesia,
paralisia, hiperestesia, entre outras).
Critérios de Exclusão
Estudos que apresentavam as seguintes características foram excluídos:
• Uso de articaína em associação com anestesia geral, sedação, outros anestésicos
locais ou medicamentos;
• Estudos envolvendo métodos de anestesia não tradicionais (por exemplo, sistemas
automatizados) ou realizados em ambientes não odontológicos;
• Uso de anestésicos tópicos ou formato de spray;
• Estudos realizados em animais (modelos in vivo) ou estudos in vitro;
• Artigos que não relataram alterações neurossensoriais no texto completo; aqueles
em que o efeito adverso constava apenas do resumo seguiam para leitura integral
antes da exclusão;
• Tipos de publicação inadequados (publicações caracterizadas como cartas ao
editor, editoriais ou pareceres de especialistas sem dados clínicos primários);
• Artigos duplicados.
Seleção dos estudos e extração de dados
A busca inicial resultou na identificação de 320 registros nas bases de dados
consultadas (PubMed: 83; SciELO: 27; LILACS Plus: 17; Google Scholar: 193). As
referências foram exportadas e gerenciadas inicialmente no software EndNote (Clarivate),
em que as duplicatas iniciais foram removidas. Posteriormente, a base de dados foi
exportada para o aplicativo web Rayyan, resultando em um total de 119 artigos únicos para
a triagem inicial.
A primeira fase de seleção consistiu na leitura de títulos e resumos (Ti/Ab), na qual
92 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade, e 4 não
possuíam resumos nem puderam ser recuperados na íntegra. Os 23 artigos restantes foram
selecionados para leitura do texto completo. Durante a fase de leitura na íntegra, mais 4
estudos não puderam ser recuperados, e outros 3 foram excluídos por diferentes motivos de
inelegibilidade: um artigo com formato de publicação inadequado, um com desfecho não
correspondente e um estudo de Papadopoulou e Anastasakis (2022), que relatou paralisia
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após suplementação com mepivacaína no nervo lingual, violando o critério de exclusão de
estudos com associação da articaína a outros anestésicos locais após o uso de articaína.
Ao final de todo o processo de triagem e da aplicação rigorosa dos critérios, 16
artigos foram mantidos e incluídos na síntese qualitativa desta revisão narrativa. A Figura 1
apresenta o fluxograma de seleção dos estudos.
Figura 1 – Fluxograma de seleção dos estudos.
Fonte: Elaborado pelos autores (2026). Dados adicionais: A busca inicial identificou 320 registros em
quatro bases de dados (PubMed: 83; SciELO: 27; LILACS Plus: 17; Google Scholar: 193). Após a remoção
de duplicatas utilizando os softwares EndNote e Rayyan, restaram 119 artigos únicos para a triagem de títulos
e resumos. Desses, 92 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios de elegibilidade, e 4 artigos
não apresentavam resumo e não puderam ser recuperados na íntegra. Os 23 artigos restantes foram
selecionados para leitura do texto completo. Durante a avaliação do texto completo, não foi possível
recuperar 4 estudos adicionais, e 3 estudos foram excluídos pelos seguintes motivos: formato de publicação
inadequado (n = 1), desfecho não correspondente (n = 1) e uso de articaína em associação com outro
anestésico local (suplementação com mepivacaína para o nervo lingual) (n = 1). Por fim, 16 estudos foram
incluídos na síntese qualitativa desta revisão narrativa.
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RESULTADOS
Características dos estudos incluídos
Esta revisão narrativa sintetizou evidências de 16 artigos selecionados segundo
critérios predefinidos, publicados entre 1995 e 2026. O perfil metodológico dos estudos
revelou uma distribuição equilibrada entre diferentes níveis de evidência científica.
Estudos retrospectivos de grande porte, baseados em bancos de dados de
farmacovigilância, como o FDA Adverse Event Reporting System (FAERS) ou registros
regionais, forneceram a base epidemiológica necessária para a análise da incidência em
populações extensas (Garisto et al., 2010; Gaffen; Haas, 2009). Em contrapartida, ensaios
clínicos controlados prospectivos ofereceram dados sobre a segurança e a eficácia da
articaína sob condições clínicas rigorosas, ao passo que relatos de caso permitiram a
documentação minuciosa de complicações raras e variações anatômicas atípicas
(Papadopoulou; Anastasakis, 2022; Dascanio et al., 2026).
Os dados demográficos dos participantes e os procedimentos odontológicos
realizados abrangeram um amplo espectro da prática clínica. A maioria das investigações
concentrou-se em pacientes adultos, embora a segurança em pediatria tenha sido abordada
em estudos de eficácia específicos (Malamed; Gagnon; Leblanc, 2001). As intervenções
variaram desde procedimentos restauradores e endodônticos de rotina até cirurgias mais
complexas, como a extração de terceiros molares, esta última frequentemente associada a
relatos de lesão nervosa devido à proximidade anatômica com feixes vasculonervosos
(Dascanio et al., 2026).
Incidência e espectro de complicações neurossensoriais
A incidência de complicações neurossensoriais associadas à articaína é classificada
na literatura como um evento raro, embora os dados variem de acordo com a metodologia
de coleta e o sistema de saúde analisado. Estudos retrospectivos sugerem que a articaína a
4% apresenta um risco relativo de parestesia superior ao esperado com base em sua
participação no mercado, chegando a ser 3,6 vezes maior do que o de outras soluções
anestésicas (Garisto et al., 2010). No entanto, é fundamental ressaltar que ensaios clínicos
prospectivos não identificaram diferenças estatisticamente significativas na taxa de efeitos
adversos entre a articaína e a lidocaína, sugerindo que o perfil de segurança permanece
aceitável para uso clínico rotineiro (Malamed; Gagnon; Leblanc, 2001).
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O espectro de lesões relatadas na literatura abrange diversas manifestações
sensoriais e, em menor grau, eventos motores. Quanto às métricas de incidência, estudos
retrospectivos indicam uma taxa de 1 caso para cada 609.000 injeções de articaína a 4%,
em comparação com a proporção de 1 para 1.100.000 injeções observada para a lidocaína a
2% (Gaffen; Haas, 2009). Em relação aos tipos de lesão, observa-se uma predominância
absoluta de parestesia, caracterizada pela perda parcial ou total da sensibilidade, seguida
por quadros de disestesia e hiperestesia (Moore; Haas, 2010). Adicionalmente, embora
ocorram de forma isolada, foram documentados eventos motores atípicos, como paralisia
do nervo facial e disfunção do nervo glossofaríngeo (Papadopoulou; Anastasakis, 2022).
No que diz respeito à duração dos sintomas, a literatura converge para o fato de que
a maioria das alterações neurossensoriais é transitória, com recuperação completa da
sensibilidade em um período médio de dois a três meses. Contudo, a persistência dos
sintomas por mais de um ano caracteriza a lesão como permanente; esse desfecho, embora
pouco frequente, apresenta maior prevalência em bloqueios do nervo alveolar inferior
quando comparado a técnicas infiltrativas (Hillerup; Jensen; Ersbøll, 2011).
Variáveis clínicas, anatômicas e farmacológicas
A análise das variáveis clínicas demonstra uma predileção anatômica acentuada nas
complicações registradas. O nervo lingual surge como a estrutura mais suscetível, sendo
afetado em aproximadamente 70% a 79% dos casos de lesão nervosa mandibular (Garisto
et al., 2010; Kakroudi; Mehta; Millar, 2015). Essa vulnerabilidade é atribuída à sua
localização anatômica superficial e à sua estrutura fascicular, o que o torna mais propenso
a traumas diretos durante a execução do bloqueio do nervo alveolar inferior (BNAI). No
nível da língula mandibular, o nervo lingual é frequentemente caracterizado como
unifascicular, enquanto o nervo alveolar inferior apresenta uma conformação
multifascicular (Pogrel, 2012). Essa distinção anatômica implica que qualquer trauma, seja
mecânico, causado pela agulha, ou químico, pela solução, apresenta maior probabilidade
de comprometer a totalidade das fibras do nervo lingual, resultando em danos mais
extensos.
A técnica anestésica desempenha um papel determinante, uma vez que a grande
maioria das complicações neurossensoriais está associada a bloqueios regionais na
mandíbula. Infiltrações na maxila raramente resultam em danos persistentes, o que reforça
a hipótese de que a combinação da técnica de bloqueio invasiva e da farmacologia do
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anestésico potencializa o risco de lesão (Kakroudi; Mehta; Millar, 2015). Além disso, a
ausência de relatos significativos de parestesia na maxila ou em contextos médicos, em que
a articaína é amplamente utilizada em anestesias espinhal e peridural, reforça a hipótese de
que o risco está associado à técnica de bloqueio do nervo alveolar inferior (IANB) em um
espaço anatômico confinado, e não exclusivamente à molécula do anestésico (Piccinni et
al., 2015).
A concentração de 4% da articaína é frequentemente citada como um fator
contribuinte para a neurotoxicidade química, visto que a exposição do tecido nervoso a
concentrações mais elevadas de anestésico local pode induzir danos axonais,
independentemente do trauma físico causado pela agulha (Hillerup; Jensen; Ersbøll, 2011;
Piccinni et al., 2015). Embora a articaína apresente alta lipossolubilidade e capacidade de
difusão, permitindo o uso de volumes reduzidos, a literatura discute se a sua formulação a
4% é o principal fator etiológico ou se o trauma mecânico da agulha e as hemorragias
intraneurais são as verdadeiras causas da parestesia (Malamed, 2006). Até o momento, não
existem evidências clínicas definitivas comparando a articaína a 4% com concentrações
mais baixas no contexto odontológico, mantendo-se a concentração de 4% como o padrão
para esse sal anestésico.
Um ponto crítico frequentemente negligenciado na literatura retrospectiva diz
respeito ao volume total de anestésico administrado. A maioria dos estudos baseados em
bancos de dados de farmacovigilância não relata com precisão o número de tubetes
utilizados nos casos que evoluíram para parestesia (Garisto et al., 2010). Essa omissão é
clinicamente relevante, uma vez que a articaína a 4% apresenta o dobro da massa
molecular por volume (72 mg/1,8 ml) em comparação com a lidocaína a 2% (36 mg/1,8
ml). Assim, a administração de múltiplos tubetes de articaína pode resultar em uma carga
molecular exacerbada no local da injeção, sugerindo que a neurotoxicidade pode ser um
fenômeno dose-dependente, potencializado pela alta concentração do fármaco.
A vulnerabilidade seletiva do nervo lingual em relação ao nervo alveolar inferior
(NAI) encontra respaldo na arquitetura fascicular dessas estruturas. O padrão unifascicular
do nervo lingual, em comparação com a conformação multifascicular do NAI, significa
que há uma menor proporção de tecido conjuntivo disponível para dissipar a energia
mecânica da injeção ou amortecer a agressão química. Além disso, o trajeto anatômico do
nervo lingual, que se situa mais superficialmente e pode permanecer sob tensão durante a
abertura máxima da boca, aumenta a probabilidade de contato direto com a agulha (Pogrel,
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2012; Malamed, 2006). Nesse sentido, a transição para um paradigma focado na precisão
da técnica de injeção, priorizando trajetórias que minimizem o contato direto com troncos
nervosos, mostra-se mais determinante para o sucesso clínico e a segurança do paciente do
que a escolha isolada do agente anestésico (Dascanio et al., 2026; Malamed, 2006).
Além de complicações sensoriais, a literatura documenta eventos neurológicos
motores mais graves, embora atípicos, como a paralisia do nervo facial e a disfunção do
nervo glossofaríngeo. Esses episódios geralmente ocorrem devido a variações anatômicas
ou ao fluxo retrógrado do fármaco (Papadopoulou; Anastasakis, 2022).
O mecanismo clássico da paralisia facial temporária envolve a injeção inadvertida
da solução anestésica na cápsula da glândula parótida, permitindo que o fármaco se
difunda pelas fáscias cervicais e atinja ramos do sétimo nervo craniano. A elevada
capacidade de difusão da articaína, decorrente de sua estrutura molecular, pode facilitar
essa dispersão indesejada caso a técnica de bloqueio regional não seja executada com
rigorosa observação dos marcos anatômicos. Embora esses eventos sejam geralmente
transitórios e autolimitados, eles ressaltam a necessidade de cautela na administração do
bloqueio do nervo alveolar inferior e a importância da aspiração negativa para evitar a
deposição intravascular ou glandular do fármaco (Papadopoulou; Anastasakis, 2022;
Malamed, 2006).
DISCUSSÃO
A etiologia primária das lesões neurossensoriais associadas ao uso da articaína
permanece um tema central de debate na literatura odontológica. Uma análise crítica das
evidências indica que, embora a articaína demonstre eficácia clínica comparável à de
outros anestésicos do grupo das amidas, não há consenso na literatura quanto à sua
neurotoxicidade direta, visto que muitos relatos de parestesia decorrem de causas
multifatoriais, como a técnica anestésica e a variabilidade anatômica (Dascanio et al.,
2026). A discussão divide-se entre o trauma mecânico direto causado pela agulha, que
pode resultar em hemorragia intraneural ou extraneural, e em processos inflamatórios
decorrentes de edema no local da injeção e a potencial neurotoxicidade química do
fármaco (Malamed, 2006).
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Propriedades Moleculares e Potencial Neurotóxico
As propriedades moleculares únicas da articaína são fundamentais para
compreender seu potencial neurotóxico. A presença do anel tiofeno em sua estrutura,
substituindo o anel benzênico convencional, confere alta lipossolubilidade e uma elevada
taxa de difusão tecidual (Malamed; Gagnon; Leblanc, 2001). Embora essas características
favoreçam a profundidade da anestesia, investigações sugerem que o risco aumentado de
parestesia pode estar correlacionado à alta concentração (4%) das soluções de articaína,
reforçando a premissa de que a segurança clínica está intrinsecamente ligada ao controle da
dosagem (Gaffen; Haas, 2009).
A hipótese de que a neurotoxicidade direta da articaína a 4% contribui para
alterações axonais por meio de contato prolongado permanece sem confirmação
mecanística definitiva na literatura; contudo, o sinal de alerta é mais expressivo para esse
agente e para a prilocaína, em comparação com outros anestésicos de menor concentração
(Piccinni et al., 2015).
Estudos comparativos in vitro indicam que a articaína não apresenta citotoxicidade
inerentemente superior à de outros anestésicos locais quando avaliada em concentrações
equimolares. O sinal de alerta clínico parece estar estritamente ligado à sua formulação
comercial a 4%, a qual expõe o tecido neural a uma concentração de soluto
significativamente mais elevada (Malamed; Gagnon; Leblanc, 2001). Deve-se também
ressaltar a distinção entre danos temporários e permanentes, uma vez que a maioria dos
relatos não especifica a duração exata dos sintomas, embora a literatura indique que a
recuperação espontânea ocorre na grande maioria dos casos em um período de 8 a 12
semanas (Hillerup; Jensen; Ersbøll, 2011).
Evidências sobre anestesia regional na medicina
Embora a articaína tenha sido historicamente associada a relatos de parestesia na
odontologia, particularmente após o bloqueio do nervo alveolar inferior (BNAI),
evidências de outras especialidades médicas levantam questões importantes sobre se esses
eventos são atribuíveis ao próprio anestésico ou a fatores específicos do procedimento. A
articaína tem sido empregada com sucesso em bloqueios de nervos periféricos na
medicina, incluindo bloqueios do plexo braquial pelas vias axilar e interescalênica,
bloqueios de nervos digitais e anestesia regional oftálmica (Snoeck, 2012; Lakhin et al.,
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2025). Estudos clínicos que comparam a articaína com outros anestésicos locais
demonstraram eficácia anestésica favorável, sem aumento na incidência de complicações
neurológicas persistentes. Por exemplo, em um estudo prospectivo e randomizado sobre
bloqueios do plexo braquial, Lakhin et al. (2025) não relataram déficits sensoriais
permanentes ou neuropatias atribuíveis à articaína, apesar da administração direta ao redor
de grandes nervos periféricos. Da mesma forma, Ertikin et al. (2017) não observaram
complicações neurológicas associadas à articaína durante o bloqueio axilar do plexo
braquial para cirurgia da mão.
É importante ressaltar que complicações neurológicas após bloqueios de nervos
periféricos são bem reconhecidas na anestesiologia, independentemente do anestésico local
utilizado. Grandes estudos prospectivos e revisões sistemáticas (Neal et al., 2015; Borgeat
et al., 2001; Brull et al., 2007) demonstraram que parestesia, hipoestesia e déficits motores
transitórios no pós-operatório podem ocorrer após anestesia regional com lidocaína,
bupivacaína, mepivacaína, ropivacaína e outros agentes. Essas complicações são
geralmente consideradas multifatoriais, sendo o trauma pela agulha, a injeção intraneural, a
alta pressão de injeção, a formação de hematoma, a isquemia, a compressão, a inflamação
pós-operatória e fatores anatômicos relacionados ao paciente os principais mecanismos de
lesão (Neal et al., 2015; Borgeat et al., 2001). Consequentemente, a literatura
contemporânea de anestesiologia não atribui a maioria das complicações neurológicas à
neurotoxicidade intrínseca de uma molécula anestésica específica.
Isso contrasta com a literatura odontológica, na qual a articaína, particularmente na
concentração de 4%, tem sido desproporcionalmente associada a relatos de parestesia dos
nervos lingual e alveolar inferior (Haas; Lennon, 1995a; Monteiro et al., 2015). No
entanto, a maior parte dessas evidências provém de relatos espontâneos de eventos
adversos, séries de casos retrospectivas e bancos de dados de farmacovigilância, que são
inerentemente incapazes de estabelecer causalidade. Além disso, uma associação
semelhante não foi demonstrada de forma consistente em ensaios clínicos randomizados ou
estudos comparativos prospectivos que avaliaram desfechos neurológicos.
Considerações Anatômicas e Técnicas
As características anatômicas e técnicas do bloqueio do nervo alveolar inferior
podem explicar parcialmente essa discrepância. Ao contrário da maioria dos bloqueios de
nervos periféricos realizados na anestesiologia moderna, o bloqueio do nervo alveolar
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inferior é tipicamente realizado utilizando-se referências anatômicas, sem visualização
direta do nervo. Consequentemente, o contato involuntário da agulha com o nervo, a
injeção intrafascicular, pressões de injeção elevadas ou a formação de hematoma
localizado podem ocorrer com maior frequência. Além disso, o nervo lingual - identificado
por Pogrel (2007) como o responsável pela maioria dos casos relatados de parestesia
pós-anestésica na odontologia - parece particularmente suscetível devido à sua localização
superficial, proteção relativamente limitada por tecido conjuntivo e menor complexidade
fascicular em comparação com muitos nervos periféricos. Essas características anatômicas
podem aumentar sua vulnerabilidade a lesões mecânicas, independentemente da solução
anestésica administrada.
Evidências experimentais também desafiam a hipótese de uma neurotoxicidade
específica da articaína. Estudos in vitro e em animais, conduzidos por Hillerup e Jensen
(2006) e por Radwan, Saito e Goto (2002), revelaram que todos os anestésicos locais do
tipo amida apresentam efeitos neurotóxicos dependentes da concentração quando o tecido
neural é exposto a concentrações suficientemente elevadas. Embora a articaína tenha
demonstrado, ocasionalmente, efeitos citotóxicos comparáveis aos de outros agentes, não
há evidências consistentes indicando que ela seja intrinsecamente mais neurotóxica do que
a lidocaína, a mepivacaína ou a bupivacaína quando avaliadas sob condições experimentais
equivalentes. A observação de que a prilocaína a 4% também foi associada à parestesia
reforça a hipótese de que a concentração do anestésico - e não a molécula específica - pode
contribuir para a lesão neural quando combinada a circunstâncias procedimentais
desfavoráveis (Haas; Lennon, 1995; 2000).
Vieses de Farmacovigilância e o Efeito Weber
A interpretação de dados epidemiológicos sobre a articaína exige extrema cautela
devido às limitações metodológicas dos estudos revisados. Muitas investigações
baseiam-se em relatos de casos retrospectivos e sistemas de farmacovigilância que carecem
de grupos de controle robustos, dificultando a distinção precisa entre lesões traumáticas
mecânicas e a neurotoxicidade química inerente ao fármaco (Hillerup; Jensen; Ersbøll,
2011; Senes et al., 2015). A natureza voluntária desses relatos frequentemente resulta em
subnotificação, limitando o cálculo preciso da incidência real dessas complicações (Gaffen;
Haas, 2009).
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Além disso, a raridade desses eventos dificulta a realização de ensaios clínicos
randomizados com poder estatístico suficiente para detectar diferenças significativas,
tornando inconclusiva a associação direta entre a articaína e a neurotoxicidade persistente.
(Moore; Haas, 2010; Kakroudi; Mehta; Millar, 2015). Fatores como o “efeito Weber”
também devem ser considerados, uma vez que a maior visibilidade da articaína no mercado
pode ter inflado artificialmente a incidência de relatos em comparação com os anestésicos
tradicionais (Piccinni et al., 2015). Ao consolidar-se como um novo padrão clínico, a
articaína foi submetida a um escrutínio muito mais rigoroso do que os agentes tradicionais,
o que pode ter gerado um viés de confirmação nos relatos voluntários (Gaffen; Haas,
2009).
Além disso, observa-se um claro viés de seleção na prática clínica: a articaína é
frequentemente o fármaco de escolha para procedimentos de alta complexidade ou casos
de inflamação aguda (“dentes quentes”), situações em que o sucesso anestésico é mais
difícil de alcançar (Dascanio et al., 2026). Nesses cenários, o trauma cirúrgico, o edema
local e a instrumentação podem ser as verdadeiras causas da compressão nervosa, sendo a
parestesia erroneamente atribuída ao agente anestésico utilizado.
Síntese de evidências e implicações clínicas
Em conjunto, as evidências disponíveis sugerem que a parestesia pós-anestésica
deve ser considerada um evento multifatorial resultante da interação entre vulnerabilidade
anatômica, técnica de injeção, trauma mecânico, respostas inflamatórias locais, formação
de hematoma, pressão de injeção, concentração do anestésico e, possivelmente, a
suscetibilidade individual do paciente. Portanto, embora os profissionais devam estar
atentos à ocorrência rara de complicações neurossensoriais após a anestesia local
odontológica, as evidências atuais não sustentam a conclusão de que a articaína,
isoladamente, seja responsável por esses eventos.
Na prática clínica, a segurança da articaína depende, primordialmente, do
refinamento rigoroso da técnica de injeção e do controle da dose. A transição para um
paradigma focado na precisão da técnica de injeção - priorizando trajetórias que
minimizem o contato direto com troncos nervosos, o uso consistente da aspiração negativa
e a limitação do volume administrado - mostra-se mais determinante para o sucesso clínico
e a segurança do paciente do que a escolha isolada do agente anestésico (Dascanio et al.,
2026; Kakroudi; Mehta; Millar, 2015).
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Questões críticas e lacunas de evidências
Várias questões críticas emergem desta análise e merecem consideração explícita.
Primeiramente, em relação à quantidade de anestésico injetado, a maioria dos estudos não
relata quantos tubetes foram administrados aos pacientes que desenvolveram parestesia ou
paralisia. Visto que a articaína requer menos tubetes do que a lidocaína para um bloqueio
do nervo alveolar inferior (BNAI) eficaz, surge a questão de saber se um número excessivo
de tubetes de articaína, e não o fármaco em si, seria a causa da parestesia. A possibilidade
de envolvimento do vasoconstritor nas alterações neurossensoriais, a potencial
contaminação dos tubetes ou a influência da duração da anestesia, ou seja, o tempo que o
organismo do paciente leva para eliminar o anestésico, também permanecem pouco
exploradas.
Em segundo lugar, a vulnerabilidade seletiva do nervo lingual em comparação com
o nervo alveolar inferior e a ausência de relatos de alterações neurossensoriais na maxila
depõem contra a hipótese de uma neurotoxicidade química primária. Se o anestésico em si
fosse a causa principal, esperar-se-ia que as complicações neurossensoriais se distribuíssem
de forma mais uniforme pelos locais de injeção, o que não se observa. Da mesma forma, a
ausência de relatos consistentes de parestesia com o uso de articaína em anestesia regional
médica enfraquece a hipótese de um perfil neurotóxico exclusivo para esse fármaco.
Em terceiro lugar, a classificação temporal das lesões permanece problemática.
Quantos dos casos relatados de parestesia ou paralisia foram permanentes, persistindo por
mais de 8 semanas, e quantos foram transitórios? A falta de especificidade nos relatos
sobre se o dano neurossensorial é temporário ou permanente representa uma limitação
significativa da atual base de evidências. A ausência de relatos também deve ser levada em
consideração em qualquer avaliação de risco equilibrada.
Em quarto lugar, ao avaliar a quantidade total de articaína administrada
mundialmente em comparação com outros anestésicos, resta saber se a incidência de
parestesia é genuinamente superior à observada com outros agentes. O papel potencial de
campanhas que estimulam o relato de eventos adversos e o “efeito Weber” na geração do
“medo” da articaína levanta a possibilidade de que um viés de notificação tenha sido
progressivamente aceito como verdade em certos segmentos da comunidade odontológica.
Por fim, um possível fator de confusão é o uso preferencial da articaína em
procedimentos mais complexos que já apresentam inflamação preexistente ou que causarão
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inflamação local, exigem tempos operatórios mais longos, levando a edema local com
compressão nervosa, envolvem manipulação do nervo ou podem causar hemorragia local,
resultando em trauma nervoso. Esses fatores relacionados ao procedimento, e não o agente
anestésico em si, podem representar a verdadeira etiologia subjacente em uma proporção
significativa dos casos relatados.
Limitações dessa revisão
Esta revisão narrativa apresenta limitações que devem ser reconhecidas. Por se
tratar de uma revisão narrativa e não sistemática, a seleção dos estudos, embora orientada
por critérios predefinidos, não seguiu um protocolo totalmente sistemático, com triagem
independente em duplicata de todos os registros. A restrição a publicações nos idiomas
inglês e português pode ter excluído estudos relevantes publicados em outras línguas.
Além disso, a heterogeneidade dos desenhos dos estudos, das definições de desfecho e dos
padrões de relato entre os estudos incluídos inviabilizou uma síntese quantitativa. Por fim,
a revisão é limitada pela qualidade da base de evidências primárias, que é
predominantemente retrospectiva e observacional.
A literatura atual não corrobora a hipótese de neurotoxicidade intrínseca e exclusiva
da articaína a 4%. As evidências, corroboradas pelo uso seguro do fármaco em anestesia
regional médica, indicam que as complicações neurossensoriais na odontologia,
predominantemente a parestesia do nervo lingual, possuem etiologia multifatorial.
Tais eventos decorrem principalmente da vulnerabilidade anatômica do nervo
lingual, particularmente sua arquitetura unifascicular no espaço pterigomandibular, do
trauma mecânico inerente à técnica de bloqueio do nervo alveolar inferior (BNAI) e do
espaço anatômico confinado onde a injeção é realizada. Esses fatores podem ser
exacerbados pela alta concentração do fármaco (4%) e pelo volume administrado, mas não
são causados exclusivamente pela molécula de articaína em si.
O relato desproporcional de parestesia associada à articaína em sistemas de
farmacovigilância pode ser parcialmente explicado por: (1) o efeito Weber, segundo o qual
fármacos recém-introduzidos ou que ganham destaque acadêmico geram um aumento nos
relatos de eventos adversos; (2) viés de seleção, uma vez que a articaína é utilizada
preferencialmente em casos cirúrgicos complexos com inflamação preexistente; (3)
confusão por fatores relacionados ao procedimento, como trauma cirúrgico, edema e
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instrumentação; e (4) a falta de documentação padronizada quanto ao volume administrado
e à classificação temporal das lesões, temporárias versus permanentes.
A ausência de um sinal reprodutível de complicações neurossensoriais com o uso
de articaína na anestesia regional médica, cenário em que o fármaco é administrado
próximo a grandes nervos periféricos sob orientação ultrassonográfica, enfraquece ainda
mais a hipótese de um perfil neurotóxico exclusivo da articaína e reforça o papel de fatores
relacionados à técnica nas complicações odontológicas.
CONCLUSÃO
Em suma, a segurança clínica com a articaína depende primordialmente do
refinamento rigoroso da técnica de injeção (incluindo a identificação precisa de marcos
anatômicos, a realização de aspiração negativa, a injeção lenta e a minimização do volume
administrado) e do controle da dose. São necessários estudos prospectivos randomizados
bem delineados, com relato padronizado de desfechos - incluindo documentação clara do
número de tubetes administrados, distinção entre lesões temporárias e permanentes e
avaliação sistemática de variáveis de confusão - para distinguir definitivamente as lesões
nervosas traumáticas das químicas na prática odontológica. Enquanto tais evidências não
estiverem disponíveis, a abordagem clínica deve priorizar a precisão da injeção e a
limitação da dose em detrimento da escolha de um agente anestésico específico.
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