Inteligência artificial na odontologia: entre eficiência clínica, julgamento humano, responsabilidade profissional e humanização do cuidado
Revista Áquila, n. 35, e35007 (2026) · DOI: 10.61565/revista-aquila.i35.1066
RESUMO A incorporação da inteligência artificial representa uma das transformações mais relevantes da odontologia contemporânea, ampliando a capacidade de reconhecimento de padrões, análise de imagens, organização de dados clínicos e apoio ao planejamento terapêutico. Entretanto, seu impacto não deve ser avaliado apenas por indicadores de desempenho algorítmico, mas também por suas implicações sobre o julgamento clínico, a responsabilidade profissional e a humanização do cuidado. Este estudo teve como objetivo discutir criticamente a incorporação da inteligência artificial na odontologia a partir de quatro eixos interdependentes: eficiência clínica, julgamento humano, responsabilidade profissional e humanização do cuidado. Trata-se de uma revisão narrativa, crítica e reflexiva, orientada por princípios de transparência inspirados na ferramenta SANRA. Foram analisadas publicações científicas, documentos institucionais, marcos regulatórios e referenciais teóricos relacionados à odontologia digital, tomada de decisão clínica, viés de automação, inteligência artificial explicável, bioética e cuidado centrado no paciente. A análise indica que a inteligência artificial pode ampliar a eficiência clínica e qualificar etapas do diagnóstico e do planejamento odontológico, especialmente em tarefas baseadas em reconhecimento de padrões. Contudo, seu uso acrítico pode favorecer viés de automação, falsa sensação de segurança, deslocamento da responsabilidade decisória e enfraquecimento da relação profissional-paciente. Conclui-se que a inteligência artificial deve ser compreendida como instrumento de inteligência aumentada, destinado a apoiar, e não substituir, o julgamento clínico. Palavras-chave: Inteligência Artificial. Odontologia. Julgamento Clínico. Responsabilidade Profissional. Humanização do Cuidado. 3 Professor Titular. Coordenador e Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Odontologia. Universidade Veiga de Almeida. Email: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3970-9047. 2Doutor e Mestre em Odontologia – Reabilitação Oral. Universidade Veiga de Almeida. Email: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6768-9071. 1Os autores declaram ter utilizado ferramentas de Inteligência Artificial Generativa como apoio à concepção, à redação e à tradução do manuscrito. O conteúdo foi submetido à revisão crítica dos autores, que assumem total responsabilidade pelo texto final. Página 1 de 20
Revista Áquila, n. 35, e35007, 2026 ISSN: 1414-8846 | E-ISSN 2317-6474 DOI:https://doi.org/10.61565/revista-aquila.i35.1066 ABSTRACT The incorporation of artificial intelligence represents one of the most significant transformations in contemporary dentistry, expanding the capacity for pattern recognition, image analysis, clinical data organization, and support for treatment planning. However, its impact should not be assessed solely through algorithmic performance indicators, but also through its implications for clinical judgment, professional responsibility, and humanized care. This study aimed to critically discuss the incorporation of artificial intelligence in dentistry based on four interdependent axes: clinical efficiency, human judgment, professional responsibility, and humanized care. This is a critical and reflective literature review, guided by transparency principles inspired by the SANRA tool. Scientific publications, institutional documents, regulatory frameworks, and theoretical references related to digital dentistry, clinical decision-making, automation bias, explainable artificial intelligence, bioethics, and patient-centered care were analyzed. The analysis indicates that artificial intelligence can enhance clinical efficiency and improve stages of dental diagnosis and treatment planning, particularly in tasks based on pattern recognition. However, its uncritical use may favor automation bias, a false sense of security, displacement of decision-making responsibility, and weakening of the professional-patient relationship. It is concluded that artificial intelligence should be understood as an instrument of augmented intelligence, designed to support, rather than replace, clinical judgment. Keywords: Artificial Intelligence. Dentistry. Clinical Judgment. Professional Responsibility. Humanized Care. RESUMEN La incorporación de la inteligencia artificial representa una de las transformaciones más relevantes de la odontología contemporánea, al ampliar la capacidad de reconocimiento de patrones, análisis de imágenes, organización de datos clínicos y apoyo a la planificación terapéutica. Sin embargo, su impacto no debe evaluarse únicamente mediante indicadores de desempeño algorítmico, sino también a partir de sus implicaciones sobre el juicio clínico, la responsabilidad profesional y la humanización de la atención. Este estudio tuvo como objetivo discutir críticamente la incorporación de la inteligencia artificial en la odontología a partir de cuatro ejes interdependientes: eficiencia clínica, juicio humano, responsabilidad profesional y humanización de la atención. Se trata de una revisión narrativa, crítica y reflexiva, orientada por principios de transparencia inspirados en la herramienta SANRA. Se analizaron publicaciones científicas, documentos institucionales, marcos regulatorios y referentes teóricos relacionados con la odontología digital, la toma de decisiones clínicas, el sesgo de automatización, la inteligencia artificial explicable, la bioética y la atención centrada en el paciente. El análisis indica que la inteligencia artificial puede ampliar la eficiencia clínica y mejorar etapas del diagnóstico y de la planificación odontológica, especialmente en tareas basadas en el reconocimiento de patrones. Sin embargo, su uso acrítico puede favorecer el sesgo de automatización, una falsa sensación de seguridad, el desplazamiento de la responsabilidad en la toma de decisiones y el debilitamiento de la relación profesional-paciente. Se concluye que la inteligencia artificial debe comprenderse como un instrumento de inteligencia aumentada, destinado a apoyar, y no a sustituir, el juicio clínico. Palabras clave: Inteligencia Artificial. Odontología. Juicio Clínico. Responsabilidad Profesional. Humanización de la Atención.
Texto integral
Leonardo Lins2
Antonio Canabarro3
RESUMO
A incorporação da inteligência artificial representa uma das transformações mais relevantes da odontologia contemporânea, ampliando a capacidade de reconhecimento de padrões, análise de imagens, organização de dados clínicos e apoio ao planejamento terapêutico. Entretanto, seu impacto não deve ser avaliado apenas por indicadores de desempenho algorítmico, mas também por suas implicações sobre o julgamento clínico, a responsabilidade profissional e a humanização do cuidado. Este estudo teve como objetivo discutir criticamente a incorporação da inteligência artificial na odontologia a partir de quatro eixos interdependentes: eficiência clínica, julgamento humano, responsabilidade profissional e humanização do cuidado. Trata-se de uma revisão narrativa, crítica e reflexiva, orientada por princípios de transparência inspirados na ferramenta SANRA. Foram analisadas publicações científicas, documentos institucionais, marcos regulatórios e referenciais teóricos relacionados à odontologia digital, tomada de decisão clínica, viés de automação, inteligência artificial explicável, bioética e cuidado centrado no paciente. A análise indica que a inteligência artificial pode ampliar a eficiência clínica e qualificar etapas do diagnóstico e do planejamento odontológico, especialmente em tarefas baseadas em reconhecimento de padrões. Contudo, seu uso acrítico pode favorecer viés de automação, falsa sensação de segurança, deslocamento da responsabilidade decisória e enfraquecimento da relação profissional-paciente. Conclui-se que a inteligência artificial deve ser compreendida como instrumento de inteligência aumentada, destinado a apoiar, e não substituir, o julgamento clínico. Palavras-chave: Inteligência Artificial. Odontologia. Julgamento Clínico. Responsabilidade Profissional. Humanização do Cuidado.
1Os autores declaram ter utilizado ferramentas de Inteligência Artificial Generativa como apoio à concepção, à redação e à tradução do manuscrito. O conteúdo foi submetido à revisão crítica dos autores, que assumem total responsabilidade pelo texto final.
2Doutor e Mestre em Odontologia – Reabilitação Oral. Universidade Veiga de Almeida. Email: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-6768-9071.
3 Professor Titular. Coordenador e Professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Odontologia. Universidade Veiga de Almeida. Email: [email protected]. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-3970-9047.
ABSTRACT The incorporation of artificial intelligence represents one of the most significant transformations in contemporary dentistry, expanding the capacity for pattern recognition, image analysis, clinical data organization, and support for treatment planning. However, its impact should not be assessed solely through algorithmic performance indicators, but also through its implications for clinical judgment, professional responsibility, and humanized care. This study aimed to critically discuss the incorporation of artificial intelligence in dentistry based on four interdependent axes: clinical efficiency, human judgment, professional responsibility, and humanized care. This is a critical and reflective literature review, guided by transparency principles inspired by the SANRA tool. Scientific publications, institutional documents, regulatory frameworks, and theoretical references related to digital dentistry, clinical decision-making, automation bias, explainable artificial intelligence, bioethics, and patient-centered care were analyzed. The analysis indicates that artificial intelligence can enhance clinical efficiency and improve stages of dental diagnosis and treatment planning, particularly in tasks based on pattern recognition. However, its uncritical use may favor automation bias, a false sense of security, displacement of decision-making responsibility, and weakening of the professional-patient relationship. It is concluded that artificial intelligence should be understood as an instrument of augmented intelligence, designed to support, rather than replace, clinical judgment. Keywords: Artificial Intelligence. Dentistry. Clinical Judgment. Professional Responsibility. Humanized Care.
RESUMEN La incorporación de la inteligencia artificial representa una de las transformaciones más relevantes de la odontología contemporánea, al ampliar la capacidad de reconocimiento de patrones, análisis de imágenes, organización de datos clínicos y apoyo a la planificación terapéutica. Sin embargo, su impacto no debe evaluarse únicamente mediante indicadores de desempeño algorítmico, sino también a partir de sus implicaciones sobre el juicio clínico, la responsabilidad profesional y la humanización de la atención. Este estudio tuvo como objetivo discutir críticamente la incorporación de la inteligencia artificial en la odontología a partir de cuatro ejes interdependientes: eficiencia clínica, juicio humano, responsabilidad profesional y humanización de la atención. Se trata de una revisión narrativa, crítica y reflexiva, orientada por principios de transparencia inspirados en la herramienta SANRA. Se analizaron publicaciones científicas, documentos institucionales, marcos regulatorios y referentes teóricos relacionados con la odontología digital, la toma de decisiones clínicas, el sesgo de automatización, la inteligencia artificial explicable, la bioética y la atención centrada en el paciente. El análisis indica que la inteligencia artificial puede ampliar la eficiencia clínica y mejorar etapas del diagnóstico y de la planificación odontológica, especialmente en tareas basadas en el reconocimiento de patrones. Sin embargo, su uso acrítico puede favorecer el sesgo de automatización, una falsa sensación de seguridad, el desplazamiento de la responsabilidad en la toma de decisiones y el debilitamiento de la relación profesional-paciente. Se concluye que la inteligencia artificial debe comprenderse como un instrumento de inteligencia aumentada, destinado a apoyar, y no a sustituir, el juicio clínico. Palabras clave: Inteligencia Artificial. Odontología. Juicio Clínico. Responsabilidad Profesional. Humanización de la Atención. INTRODUÇÃO
A odontologia contemporânea vivencia uma transformação tecnológica profunda,
impulsionada pela incorporação progressiva de ferramentas digitais capazes de ampliar a
precisão diagnóstica, otimizar fluxos clínicos e apoiar o planejamento terapêutico. Scanners
intraorais, sistemas CAD/CAM, tomografia computadorizada de feixe cônico, planejamento
virtual e impressão tridimensional modificaram substancialmente a forma como informações
2017; Joda; Brägger; Gallucci, 2015; Van Noort, 2012).
Nesse contexto, a inteligência artificial (IA) passou a ocupar papel de destaque,
especialmente por sua capacidade de reconhecer padrões, interpretar exames de imagem,
auxiliar na classificação de risco e oferecer suporte à tomada de decisão clínica em áreas
como cariologia, periodontia, radiologia, ortodontia, implantodontia, endodontia e análise de
imagens tridimensionais (Schwendicke; Samek; Krois, 2020; Chen; Stanley; Att, 2020;
Thurzo et al., 2022; Lee et al., 2025). Esse avanço tem alimentado expectativas relacionadas
ao aumento da eficiência clínica, à redução da variabilidade diagnóstica e à ampliação da
capacidade analítica do cirurgião-dentista. Entretanto, a incorporação de sistemas inteligentes
à prática odontológica não deve ser analisada apenas a partir de indicadores de acurácia,
sensibilidade ou especificidade, pois sua presença modifica também a dinâmica da decisão
clínica, da responsabilidade profissional e da relação entre profissional e paciente.
Embora algoritmos possam apresentar desempenho elevado em tarefas circunscritas, a
prática clínica não se reduz ao reconhecimento de padrões. O julgamento clínico envolve
integração de evidências científicas, experiência profissional, interpretação contextual,
valores do paciente, análise de riscos, comunicação, responsabilidade ética e gestão da
incerteza. Em odontologia, muitas decisões relevantes não são tomadas diante de certezas
absolutas, mas de cenários probabilísticos, ambíguos e individualizados. A indicação de um
tratamento restaurador, a decisão de preservar ou extrair um dente, o planejamento de
implantes ou a interpretação de uma lesão radiográfica exigem mais do que a identificação
visual de sinais; exigem compreensão do paciente em sua singularidade biológica, funcional,
psicológica e social (Croskerry, 2009; Norman; Eva, 2010; Simpkin; Schwartzstein, 2016).
Nesse contexto, a inteligência artificial introduz um paradoxo central. Por um lado,
pode ampliar a eficiência clínica, reduzir falhas perceptivas, organizar grandes volumes de
dados e oferecer subsídios relevantes ao raciocínio profissional. Por outro, pode favorecer
dependência acrítica, deslocamento indevido da responsabilidade decisória e
enfraquecimento do julgamento humano quando utilizada como substituta, e não como
ferramenta de apoio. Fenômenos como automation bias e automation complacency
demonstram que profissionais podem confiar excessivamente em sistemas automatizados,
aceitando recomendações incorretas ou reduzindo sua vigilância crítica diante de resultados
Wyatt, 2012; Lyell; Coiera, 2017). Assim, o problema não reside apenas na capacidade
técnica da inteligência artificial, mas na forma como ela é integrada ao processo clínico.
A discussão ética torna-se ainda mais relevante quando se considera que a
responsabilidade pelo cuidado permanece vinculada ao profissional que estabelece a relação
clínica com o paciente. Mesmo diante de sistemas regulados, validados ou comercialmente
difundidos, a decisão final continua exigindo interpretação humana, prudência, comunicação
transparente e responsabilidade profissional. A literatura em bioética e saúde digital tem
destacado que a implementação de inteligência artificial em saúde deve preservar autonomia,
beneficência, não maleficência, justiça, transparência e accountability (Beauchamp;
Childress, 2019; Char; Shah; Magnus, 2018; World Health Organization, 2021; UNESCO,
2021). Na odontologia, esses princípios assumem particular importância porque a decisão
clínica ocorre em uma relação fiduciária, na qual o paciente deposita confiança não apenas na
competência técnica do cirurgião-dentista, mas também em sua capacidade de julgamento,
escuta e cuidado.
Diante desse cenário, torna-se necessário deslocar o debate da substituição
profissional para o paradigma da inteligência aumentada. Nessa perspectiva, a inteligência
artificial não deve ser compreendida como uma nova forma de inteligência clínica autônoma,
mas como um instrumento capaz de ampliar a capacidade analítica do cirurgião-dentista,
preservando a centralidade do julgamento humano. A tecnologia pode auxiliar na organização
de informações, no reconhecimento de padrões e na redução de incertezas técnicas pontuais,
mas não substitui a deliberação clínica, a responsabilidade ética nem a humanização do
cuidado (Topol, 2019b; Miller, 2019; Amann et al., 2020).
Assim, o presente artigo tem como objetivo discutir criticamente a incorporação da
inteligência artificial na odontologia contemporânea a partir de quatro eixos centrais:
eficiência clínica, julgamento humano, responsabilidade profissional e humanização do
cuidado. Parte-se da premissa de que o futuro da odontologia digital não dependerá apenas da
sofisticação dos algoritmos, mas da capacidade da profissão de integrá-los de modo crítico,
ético e centrado no paciente. A inteligência artificial pode ampliar o processamento de
informações e apoiar determinadas etapas diagnósticas e terapêuticas; contudo, permanece
diante da incerteza que caracteriza a prática clínica.
Metodologia
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, de natureza
crítica e reflexiva. A busca bibliográfica foi realizada no primeiro semestre de 2026,
contemplando publicações relacionadas à inteligência artificial, odontologia digital,
diagnóstico por imagem, tomada de decisão clínica, viés de automação, inteligência artificial
explicável, bioética, responsabilidade profissional, governança de tecnologias em saúde e
cuidado centrado no paciente. Foram consultadas as bases PubMed/MEDLINE, Scopus, Web
of Science, Cochrane Library, SciELO e Google Scholar, além de documentos institucionais e
normativos de organismos internacionais e entidades profissionais reconhecidas.
Foram utilizados descritores controlados e termos livres em português e inglês,
incluindo combinações de “inteligência artificial”, “odontologia”, “julgamento clínico”,
“tomada de decisão clínica”, “viés de automação”, “inteligência artificial explicável”,
“responsabilidade profissional”, “bioética” e “cuidado centrado no paciente”. Foram
incluídos artigos originais, revisões, estudos conceituais, documentos institucionais, diretrizes
internacionais, marcos regulatórios e obras clássicas relevantes para a discussão proposta.
Foram excluídos estudos exclusivamente técnicos sobre arquitetura de algoritmos sem
relação direta com a prática clínica, textos opinativos sem fundamentação científica e
materiais comerciais utilizados apenas para divulgação de produtos.
A seleção final das referências considerou relevância conceitual, atualidade, qualidade
metodológica, pertinência ao tema central e capacidade de sustentar criticamente os eixos do
artigo. A elaboração metodológica foi orientada por princípios de transparência aplicáveis às
revisões narrativas, com inspiração na ferramenta SANRA (Scale for the Assessment of
Narrative Review Articles), proposta para auxiliar autores, revisores e editores na avaliação
da qualidade de revisões narrativas (Baethge; Goldbeck-Wood; Mertens, 2019). O SANRA
não foi aplicado como instrumento formal de pontuação, mas utilizado como referência para
explicitar a relevância do tema, os objetivos da revisão, a estratégia de busca, os critérios de
seleção das fontes e a coerência do raciocínio científico.
A análise dos textos selecionados foi conduzida por leitura crítica e síntese narrativa,
sem pretensão de metanálise ou síntese quantitativa. As informações foram organizadas em
quatro categorias analíticas: a) eficiência clínica e aplicações da inteligência artificial na
odontologia; b) julgamento humano, raciocínio clínico e gestão da incerteza; c)
responsabilidade profissional, transparência e riscos do uso acrítico de sistemas
automatizados; e d) humanização do cuidado, relação fiduciária e centralidade do paciente.
DESENVOLVIMENTO Inteligência Artificial Odontológica e Eficiência Clínica
A incorporação da inteligência artificial na odontologia deve ser compreendida no
contexto mais amplo da transformação digital da prática clínica. Antes mesmo da
disseminação dos sistemas inteligentes, tecnologias como scanners intraorais, sistemas
CAD/CAM, tomografia computadorizada de feixe cônico, planejamento virtual, impressão
tridimensional e integração digital de dados clínicos já vinham modificando a forma como
informações são obtidas, processadas e incorporadas ao cuidado odontológico (Van Noort,
2012; Joda; Brägger; Gallucci, 2015; Mangano et al., 2017).
Nesse cenário, a inteligência artificial (IA) representa uma etapa adicional da
digitalização odontológica, pois não se limita a registrar ou organizar informações. Sua
contribuição principal está na capacidade de reconhecer padrões, correlacionar grandes
volumes de dados e apoiar a interpretação clínica em tarefas específicas. Sistemas baseados
em aprendizado de máquina e aprendizagem profunda vêm sendo utilizados na detecção de
cáries, avaliação periodontal, identificação de lesões periapicais, interpretação de
radiografias, análise de tomografias computadorizadas de feixe cônico, planejamento
ortodôntico, implantodontia e apoio à tomada de decisão clínica (Schwendicke; Samek;
Krois, 2020; Chen; Stanley; Att, 2020; Thurzo et al., 2022).
A eficiência clínica proporcionada pela IA decorre, em grande parte, de sua
capacidade de executar tarefas repetitivas e padronizáveis com velocidade, consistência e alta
capacidade de processamento. Em exames de imagem, por exemplo, algoritmos podem
auxiliar na triagem de alterações radiográficas, destacar regiões de interesse, sugerir
classificações diagnósticas e reduzir falhas perceptivas associadas à fadiga, à sobrecarga
2025).
Além do campo acadêmico, a inteligência artificial já alcança aplicação regulada e
comercial na odontologia, especialmente em soluções voltadas à análise de imagens
odontológicas. A existência de sistemas autorizados por agências regulatórias para uso clínico
indica que essas tecnologias já integram a realidade de consultórios, clínicas e centros de
diagnóstico. Assim, a questão central deixa de ser se a IA será incorporada à odontologia e
passa a ser como ela deve ser incorporada de modo crítico, seguro e eticamente responsável
(Shujaat et al., 2025).
Entretanto, eficiência clínica não deve ser confundida com suficiência clínica. A
capacidade de um algoritmo identificar padrões em imagens ou sugerir classificações
diagnósticas não equivale à totalidade do processo clínico. A prática odontológica envolve
anamnese, exame físico, escuta do paciente, análise de fatores sistêmicos, avaliação de riscos,
preferências individuais e responsabilidade pela decisão terapêutica. Além disso, o
desempenho algorítmico depende da qualidade dos dados utilizados no desenvolvimento,
treinamento e validação dos sistemas, podendo apresentar limitações quando transferido para
ambientes clínicos heterogêneos (Thurzo et al., 2022; Lee et al., 2025).
Portanto, a inteligência artificial deve ser compreendida como ferramenta capaz de
aumentar a eficiência clínica da odontologia, especialmente em tarefas relacionadas ao
reconhecimento de padrões, à triagem de informações e ao apoio diagnóstico. Seu valor,
contudo, depende da integração com o julgamento humano. Quando utilizada como
instrumento auxiliar, pode contribuir para decisões mais informadas e fluxos mais
organizados; quando interpretada como substituta da deliberação clínica, pode produzir falsa
sensação de segurança e deslocar indevidamente a responsabilidade profissional.
Julgamento Clínico, Viés de Automação e Confiança Calibrada
A incorporação da inteligência artificial torna necessário retomar uma questão
fundamental: o que caracteriza o julgamento clínico? À primeira vista, parte da prática
odontológica pode parecer baseada no reconhecimento de padrões. O cirurgião-dentista
observa imagens, identifica alterações morfológicas, correlaciona sinais clínicos e formula
hipóteses diagnósticas. Nesse aspecto, a IA apresenta desempenho relevante, pois algoritmos
Entretanto, reduzir o julgamento clínico ao reconhecimento de padrões simplifica
excessivamente a natureza da decisão em saúde.
O julgamento clínico envolve a integração de informações provenientes de múltiplas
fontes: anamnese, exame físico, exames complementares, histórico médico, condições
sistêmicas, fatores funcionais, contexto psicossocial, expectativas do paciente, possibilidades
terapêuticas e limites biológicos. Essa integração exige raciocínio clínico, experiência
profissional, prudência, comunicação e capacidade de ponderar riscos e benefícios diante de
situações frequentemente incompletas ou ambíguas (Croskerry, 2009; Norman; Eva, 2010).
A incerteza é dimensão constitutiva da prática clínica. Em odontologia, muitas
decisões não se apresentam como escolhas entre verdadeiro e falso, mas como deliberações
diante de probabilidades. A interpretação de uma imagem radiográfica, a manutenção de um
dente com prognóstico duvidoso, a indicação de implantes ou a escolha entre acompanhar e
intervir exigem ponderação entre alternativas possíveis, e não simples aplicação automática
de protocolos. Nesse sentido, o julgamento clínico não consiste apenas em eliminar a
incerteza, mas em administrá-la de modo responsável (Simpkin; Schwartzstein, 2016).
Essa capacidade diferencia o raciocínio clínico da inferência algorítmica. Sistemas de
IA operam a partir de padrões presentes nos dados utilizados em seu treinamento e validação.
Quando aplicados a situações semelhantes às bases de treinamento, podem oferecer
desempenho elevado. Contudo, diante de cenários atípicos, informações incompletas,
condições clínicas sobrepostas ou pacientes não representados adequadamente nos dados,
seus resultados podem tornar-se menos confiáveis. Cabe ao clínico reconhecer essas zonas de
indeterminação e decidir quando aceitar, questionar ou relativizar uma recomendação
automatizada.
A literatura sobre raciocínio clínico mostra que a tomada de decisão envolve
processos intuitivos e analíticos. O pensamento rápido, baseado em reconhecimento de
padrões e experiência acumulada, pode ser eficiente em situações familiares, mas está sujeito
a vieses cognitivos. O pensamento reflexivo permite revisar hipóteses, considerar alternativas
e reduzir erros de julgamento (Kahneman, 2011; Croskerry, 2009). A IA pode atuar como
segunda camada de análise, chamando atenção para achados que poderiam passar
justamente o componente reflexivo do julgamento clínico.
Nesse ponto, surgem riscos cognitivos relevantes, como o viés de automação e a
complacência com a automação. O viés de automação ocorre quando o profissional atribui
confiança excessiva às recomendações automatizadas, aceitando resultados sem verificação
crítica suficiente. A complacência manifesta-se quando o profissional reduz sua vigilância
ativa por considerar o sistema confiável para monitorar ou interpretar determinadas
informações. Ambos os fenômenos são particularmente preocupantes em contextos clínicos,
nos quais decisões envolvem incerteza, responsabilidade profissional e consequências diretas
para o paciente (Parasuraman; Riley, 1997; Goddard; Roudsari; Wyatt, 2012; Lyell; Coiera,
2017).
Na prática odontológica, o risco não está apenas em o algoritmo errar, mas em o
profissional deixar de perceber que o algoritmo pode errar. Quando uma recomendação
automatizada é recebida como conclusão objetiva, e não como informação auxiliar, ocorre
uma transferência silenciosa da carga decisória para a máquina. Essa transferência pode
enfraquecer a autonomia profissional, reduzir a investigação clínica e comprometer a
responsabilidade do cirurgião-dentista diante do paciente (Gaube et al., 2021; Asan; Bayrak;
Choudhury, 2020).
A confiança calibrada emerge, portanto, como competência essencial. Confiar
adequadamente em um sistema inteligente significa reconhecer sua utilidade sem ignorar suas
limitações. Um sistema deve ser considerado confiável quando opera dentro de seu domínio
validado, com dados adequados e em tarefas para as quais demonstrou desempenho
consistente. Contudo, deve ser questionado quando suas recomendações divergem do quadro
clínico, quando há sinais não capturados pelo algoritmo ou quando o caso se afasta dos
padrões sobre os quais o sistema foi treinado (Hoff; Bashir, 2015).
Assim, o desafio não consiste em escolher entre confiar ou desconfiar da inteligência
artificial, mas em aprender a confiar adequadamente. A confiança excessiva pode transformar
a IA em autoridade indevida; a desconfiança absoluta pode impedir o aproveitamento de seus
benefícios. Entre esses extremos, a confiança calibrada permite utilizar a inteligência
artificial como instrumento de apoio, mantendo o julgamento humano como instância final de
interpretação, decisão e responsabilidade.
A discussão sobre inteligência artificial na odontologia não pode limitar-se ao
desempenho dos algoritmos. Em contextos clínicos, tão importante quanto saber se um
sistema produz uma resposta adequada é compreender como essa resposta foi gerada, quais
dados influenciaram a recomendação e em que medida o profissional pode interpretá-la
criticamente. Essa necessidade torna a inteligência artificial explicável, ou Explainable
Artificial Intelligence (XAI), um tema central para a integração segura da IA à prática
odontológica.
A inteligência artificial explicável refere-se ao conjunto de abordagens destinadas a
tornar sistemas algorítmicos mais compreensíveis, interpretáveis e auditáveis. Em saúde, essa
exigência assume importância especial porque decisões clínicas não podem ser sustentadas
apenas em resultados opacos, ainda que estatisticamente precisos. Quando um sistema indica
uma possível cárie, perda óssea, lesão periapical ou alteração tomográfica, o
cirurgião-dentista precisa compreender minimamente quais elementos contribuíram para essa
indicação, a fim de confrontá-la com o exame clínico, a história do paciente e seu próprio
raciocínio profissional (Amann et al., 2020; Antoniadi et al., 2021).
A explicabilidade contribui para reduzir a opacidade, favorecer a confiança calibrada,
apoiar a auditoria clínica e preservar o papel crítico do cirurgião-dentista. Entretanto, não
deve ser tratada como solução definitiva para todos os problemas da IA em saúde.
Explicações visualmente convincentes podem produzir falsa sensação de compreensão,
sobretudo quando o profissional não possui formação adequada para interpretar os limites do
modelo. Por isso, a explicabilidade deve estar associada à validação clínica, à avaliação
crítica, ao treinamento profissional e à governança adequada (Rudin, 2019; Ghassemi;
Oakden-Rayner; Beam, 2021).
A dimensão ética e regulatória reforça essa necessidade. Documentos internacionais
sobre IA em saúde destacam princípios como supervisão humana, transparência, segurança,
equidade, proteção de dados, accountability e preservação da autonomia. Na odontologia, tais
princípios são relevantes porque decisões clínicas podem envolver intervenções irreversíveis,
impactos estéticos, funcionais, emocionais e financeiros. A aprovação regulatória de um
sistema, por mais importante que seja, não elimina a necessidade de interpretação profissional
Parliament and Council of the European Union, 2024).
A responsabilidade profissional permanece como eixo central. Mesmo quando um
sistema de IA auxilia no diagnóstico ou no planejamento, o cirurgião-dentista continua sendo
o profissional que estabelece a relação clínica, interpreta achados, comunica alternativas e
assume a decisão terapêutica diante do paciente. A recomendação algorítmica pode participar
do processo decisório, mas não possui responsabilidade moral, não estabelece vínculo
fiduciário e não responde perante o paciente (Char; Shah; Magnus, 2018; Price; Gerke;
Cohen, 2019; Gerke; Minssen; Cohen, 2020; Naik et al., 2022). Essa responsabilidade inclui
transparência no uso da tecnologia, proteção de dados, atenção à equidade e consentimento
informado. Algoritmos treinados em bases pouco diversas podem apresentar desempenho
Além disso, imagens radiográficas, tomografias, fotografias clínicas, modelos digitais
A humanização do cuidado representa o eixo que articula esses elementos. A IA pode
A preservação da humanização depende diretamente da formação profissional. A
Portanto, a odontologia digital não deve caminhar para a substituição da clínica pela
automação, mas para uma clínica ampliada pela tecnologia e orientada pela responsabilidade
humana. A formação profissional deve preparar o cirurgião-dentista para atuar como
intérprete crítico da inteligência artificial, guardião da relação fiduciária e mediador ético
entre dados, evidências e valores do paciente. Nesse horizonte, a verdadeira inovação não
será apenas a adoção de sistemas mais inteligentes, mas a construção de uma prática
odontológica capaz de permanecer humana em meio à sofisticação tecnológica. Os principais
artificial, seus riscos associados e o papel preservado do cirurgião-dentista na tomada de
decisão clínica.
Confundir eficiência técnica com suficiência clínica
Integrar os achados ao exame clínico e ao contexto do paciente
Transformar probabilidade algorítmica em certeza clínica
Interpretar informações, ponderar riscos e decidir sob incerteza
Aceitar recomendações automatizadas sem verificação crítica
Manter vigilância, questionar discrepâncias e validar clinicamente
Produzir falsa sensação de compreensão ou segurança
Avaliar se a explicação é clinicamente plausível e relevante
Apoiar documentação, análise e decisão clínica
Diluir ou deslocar a responsabilidade pelo cuidado
Preservar a accountability e a decisão final profissional
Humanização do cuidado
Liberar tempo para escuta, comunicação e deliberação compartilhada
Reduzir o paciente a dados, imagens ou probabilidades
Manter vínculo, comunicação clara e cuidado centrado na pessoa
Fonte: Elaborado pelos autores (2026). DISCUSSÃO
A presente revisão narrativa crítica analisou a incorporação da inteligência artificial
na odontologia a partir de quatro eixos interdependentes: eficiência clínica, julgamento
humano, responsabilidade profissional e humanização do cuidado. Sua principal contribuição
consiste em deslocar o debate da simples avaliação do desempenho algorítmico para uma
reflexão sobre o lugar que a IA deve ocupar na prática odontológica contemporânea. Embora
a literatura demonstre avanços relevantes em reconhecimento de padrões, interpretação de
exames de imagem e apoio ao planejamento terapêutico, a análise desenvolvida indica que
essas tecnologias devem ser compreendidas dentro de um modelo de inteligência aumentada,
no qual a IA amplia a capacidade analítica do cirurgião-dentista sem substituir sua
responsabilidade clínica (Schwendicke; Samek; Krois, 2020; Chen; Stanley; Att, 2020;
Topol, 2019b).
Esse ponto é relevante porque grande parte do entusiasmo em torno da inteligência
artificial em saúde deriva de sua capacidade de processar grandes volumes de dados e
identificar regularidades estatísticas com velocidade e precisão. Na odontologia, esse
potencial é evidente em áreas como radiologia, periodontia, implantodontia, ortodontia e
planejamento digital. Entretanto, eficiência técnica não deve ser confundida com suficiência
clínica. Um algoritmo pode reconhecer uma alteração radiográfica, estimar probabilidades ou
sugerir classificações diagnósticas, mas não integra, por si só, anamnese, exame clínico,
valores do paciente, limitações biológicas, prognóstico, impacto funcional e responsabilidade
ética. Assim, a IA pode qualificar etapas do cuidado, mas não substitui a complexidade do
julgamento clínico (Thurzo et al., 2022; Lee et al., 2025).
A discussão sobre julgamento clínico permanece central para compreender os limites
da automação em odontologia. A prática clínica não se reduz à identificação de padrões,
ainda que esse componente seja relevante. Ela envolve raciocínio contextual, formulação de
hipóteses, revisão crítica de informações, comunicação de incertezas e tomada de decisão
decide entre alternativas absolutamente corretas ou incorretas, mas entre possibilidades que
exigem ponderação de riscos, benefícios, prognóstico, custo biológico e expectativas do
paciente. Nessa perspectiva, a incerteza não representa uma falha da clínica, mas uma
condição própria do cuidado em saúde (Croskerry, 2009; Norman; Eva, 2010; Simpkin;
Schwartzstein, 2016).
A IA pode contribuir para reduzir incertezas técnicas pontuais, especialmente quando
auxilia na detecção de achados sutis, na comparação de imagens, na triagem de exames e na
organização de informações clínicas. Contudo, também pode produzir ilusão de certeza
quando seus resultados são recebidos como conclusões finais. Esse risco é particularmente
importante diante do viés de automação e da complacência com a automação, fenômenos nos
quais profissionais podem confiar excessivamente em sistemas automatizados ou reduzir sua
vigilância crítica diante de recomendações algorítmicas percebidas como confiáveis
(Parasuraman; Riley, 1997; Goddard; Roudsari; Wyatt, 2012; Lyell; Coiera, 2017).
Na prática odontológica, o problema não está apenas na eventual falha algorítmica,
mas na relação cognitiva estabelecida entre o profissional e o sistema. Quando a IA é tratada
como autoridade decisória, o julgamento clínico tende a ser deslocado para uma posição
secundária, enfraquecendo a autonomia profissional e a responsabilidade diante do paciente
(Gaube et al., 2021; Asan; Bayrak; Choudhury, 2020). Por isso, a confiança calibrada emerge
como competência essencial: confiar adequadamente em um sistema inteligente significa
reconhecer sua utilidade sem ignorar suas limitações, seu contexto de validação e seu
domínio de aplicação (Hoff; Bashir, 2015).
A inteligência artificial explicável contribui para essa confiança calibrada, mas não
resolve isoladamente todos os desafios. Sistemas capazes de apresentar mapas de calor,
regiões de interesse, níveis de confiança ou justificativas interpretáveis podem auxiliar o
profissional a compreender melhor a recomendação algorítmica. No entanto, explicações
visualmente convincentes não garantem compreensão real do funcionamento do modelo nem
validade clínica da inferência. Por isso, a explicabilidade deve estar associada à validação
clínica, à formação profissional, à governança de dados e à manutenção do julgamento
humano como instância final de decisão (Rudin, 2019; Amann et al., 2020; Ghassemi;
Oakden-Rayner; Beam, 2021).
A formação profissional torna-se, portanto, elemento estratégico para a integração
segura da inteligência artificial na odontologia. O cirurgião-dentista do futuro não deverá ser
apenas operador de programas, mas intérprete crítico de sistemas inteligentes. Isso exige
competências em letramento digital, compreensão básica de aprendizado de máquina,
reconhecimento de vieses algorítmicos, interpretação de resultados, comunicação de
incertezas, ética aplicada e tomada de decisão centrada no paciente (Schwendicke et al.,
2023; Harte et al., 2025; Mun et al., 2025).
Como limitação, esta revisão narrativa não teve como objetivo realizar metanálise,
quantificar o desempenho de sistemas específicos ou comparar estatisticamente ferramentas
de IA utilizadas em diferentes áreas da odontologia. Sua contribuição está na integração
crítica de evidências clínicas, referenciais éticos, discussões regulatórias e conceitos
relacionados ao julgamento profissional. Pesquisas futuras devem avaliar como sistemas de
inteligência artificial influenciam decisões odontológicas em cenários reais, incluindo erros
diagnósticos, adesão às recomendações, comunicação com pacientes, consentimento
informado, equidade, formação profissional e distribuição de responsabilidade.
Dessa forma, a inteligência artificial deve ser compreendida como uma das
transformações mais relevantes da odontologia contemporânea, mas seu valor dependerá
menos da promessa de substituir decisões humanas e mais da capacidade de ampliar a prática
clínica de modo responsável. A eficiência algorítmica pode qualificar o diagnóstico e o
planejamento; a explicabilidade pode favorecer a transparência; a regulação pode estabelecer
parâmetros de segurança; e a formação profissional pode reduzir riscos cognitivos. Contudo,
a decisão clínica continuará exigindo julgamento, prudência, comunicação e compromisso
ético.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A inteligência artificial representa uma transformação relevante da odontologia
contemporânea, com potencial para ampliar a eficiência clínica, qualificar a análise de
informações e apoiar decisões diagnósticas e terapêuticas. Contudo, seu valor não deve ser
medido apenas pela capacidade de reconhecer padrões ou processar grandes volumes de
dados, mas pela forma como é integrada ao cuidado odontológico.
Os achados desta revisão narrativa crítica indicam que a IA deve ser compreendida
como instrumento de inteligência aumentada, e não como substituta do julgamento clínico. A
decisão odontológica permanece dependente da interpretação contextual, da gestão da
incerteza, da comunicação com o paciente e da responsabilidade ética do cirurgião-dentista.
A adoção segura da IA exige confiança calibrada, explicabilidade, supervisão
humana, governança de dados, formação profissional adequada e clareza sobre a
responsabilidade pelos atos clínicos mediados por tecnologia. Conclui-se que o futuro da
odontologia digital não será definido apenas pela sofisticação dos sistemas inteligentes, mas
pela capacidade da profissão de integrá-los de modo crítico, ético e humanizado.
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