Transmitância: uma afinidade eletiva no entre do ensinar e transmitir – Freire e Freud em travessia
Programa de Mestrado e Doutorado em Psicanálise, Saúde e Sociedade (2026)
Palavras-chave:
Transmitância, Paulo Freire, Sigmund Freud, Educação popular, PsicanáliseResumo
A tese investiga a relação entre educação popular e psicanálise a partir da interlocução entre Paulo Freire e Sigmund Freud, tendo como problema central a tensão entre a crítica freiriana à transmissão bancária e a concepção
psicanalítica de transmissão como passagem de marcas, heranças, identificações e restos que atravessam sujeitos e gerações. Parte-se da hipótese de que essa tensão não representa apenas um desencontro terminológico, mas
revela, na própria pedagogia freiriana, uma demanda dirigida à psicanálise, especialmente quando a formação toca culpa, medo, opressão interiorizada, identificação e limites da consciência. A pesquisa é qualitativa e teórico-
bibliográfica, conduzida por orientação analítico-interpretativa, com apoio na análise de conteúdo, no emparelhamento conceitual e na análise histórica. O percurso examina, inicialmente, os exílios de Paulo Freire como operadores de formação, incluindo o banimento epistêmico de seu nome no debate educacional
brasileiro. Em seguida, analisa a teoria freiriana do conhecimento, destacando o inacabamento, a alteridade, a conscientização, a dialogicidade, a crítica à educação bancária e a educação problematizadora. A tese delimita ainda os fundamentos da educação popular e da psicanálise, identificando nelas um gesto
herético comum: a restituição da palavra ao que foi historicamente silenciado, seja o povo, seja o inconsciente. Na sequência, acompanha a presença de Freud no campo da educação sob escuta freiriana, discutindo repressão, resistência, identificação, transferência, mestria, impossível de educar e transmissão. Como resultado, formula-se o conceito de transmitância, deslocado do campo da física e reinscrito no entre da educação e da psicanálise, para nomear aquilo que passa no ato educativo sem se reduzir à transferência de conteúdos nem à repetição psíquica. Conclui-se que a transmitância constitui uma afinidade eletiva entre ensinar e transmitir, funcionando como dispositivo teórico- pedagógico capaz de pensar palavra, vínculo, herança, escuta e libertação sem recaída na lógica bancária. A tese sustenta, por fim, que a formação humana é herética e incompletável: herética porque recusa tanto a fusão conciliadora quanto a separação estéril entre educação e psicanálise; incompletável porque reconhece que todo educar produz efeitos, mas nunca se encerra em resultado pleno, definitivo ou sem resto.
Acesso ao texto:
https://drive.google.com/file/d/1FVeKJO5l6jQr2a0gLr3SR8apK8IPtvef/view